SOBRE A MESA: A ILHA PROIBIDA

SOBRE A MESA: A ILHA PROIBIDA

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    pic646458_mdUm grupo de aventureiros explora uma ilha esquecida pelo tempo em busca de tesouros antigos cujos poderes prometem causar dano catastrófico ao mundo se caírem em mãos erradas… Segundo a lenda, os quatro tesouros sagrados pertenciam a um antigo povo místico conhecido como os Arqueanos, capazes de controlar os principais elementos de nosso planeta: o fogo, o ar, a água e a terra. Para proteger esses tesouros, os Arqueanos os mantinham escondidos na Ilha Proibida, que afunda para repelir seus invasores e depois se renova. O povo Arqueano se foi e os tesouros sagrados de poder continuam intactos em seu lugar. Até agora…

    Parece o enredo de um filme de aventura digno das peripécias realizadas apenas por um certo professor de arqueologia e inconvencional aventureiro conhecido de todos, mas trata-se do fantástico A Ilha Proibida, jogo cooperativo onde cada jogador representa um dos especialistas de um intrépido grupo de aventureiros em busca dos tão almejados tesouros antigos. E como são belos os tesouros! Os componentes do jogo são impecáveis tanto na versão original quanto na versão nacional trazida pela DEVIR. Apenas um adendo… Existem alguns pequenos deslizes ortográficos, aqueles famosos erros de português, fato que parece cada vez mais comum nas versões nacionais de jogos de diferentes empresas e que deveria receber uma atenção especial. Nada que interfira gravemente na apreciação do jogo, mas os mais exigentes podem se sentir incomodados.

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    Como todo bom jogo cooperativo, cada aventureiro possui habilidades distintas e equilibradas e existe apenas uma maneira de vencer – encontrar todos os quatro tesouros e reunir o grupo na pista de aterrissagem para então alçarem voo – enquanto há várias maneiras de perder, o que torna o desafio muito empolgante.

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    As quatro belíssimas estatuetas dos tesouros proibidos

    A Ilha Proibida foi produzida pela Gamewright, empresa mais especializada em jogos infantis e para a família, mas a série desenvolvida pelo game designer Matt Leacock, mesmo autor do jogo Forbidden Desert, por sua complexidade um pouco mais elevada, parece ter um tom mais sério. O jogo Forbidden Desert, cuja versão nacional ainda está por ser lançada, veio depois e além de aprimorar alguns aspectos da mecânica do primeiro, possui uma temática muito semelhante, denotando quem sabe um mesmo universo? Talvez podemos esperar por aí um “Forbidden Volcano” (do fogo) ou “Forbidden Caves” (da terra)? Nada mal, hein? Por favor, alguém dê a ideia ao criador e sua produtora, queremos mais! Seja como for, a série vem sendo muito bem aceita por jogadores de todo mundo. A Ilha Proibida já recebeu uma grande sorte de prêmios e, apesar de não ter levado esse, foi nomeada ao prêmio de melhor jogo do ano no Spiel des Jahres de 2011, a maior premiação do mundo dos jogos de tabuleiro.

    Mecânica:
    – Cooperação
    – Alocação de pontos de ação
    – Movimento em grade
    – Tabuleiro modular
    – Coleção de conjunto
    – Poderes variáveis de jogadores

    A ilha é constituída por 24 peças de terreno posicionadas aleatoriamente e de forma simétrica de acordo com o manual de regras, mas existem outros modelos de ilha que podem ser ainda mais desafiadores e é altamente aconselhável que sejam testados pelos jogadores, colaborando ainda mais para o fator “rejogabilidade” que já é grande devido às variáveis que o jogo apresenta.

    Cada jogador começa em um determinado terreno da ilha que é definido pelo aventureiro que escolheu ou recebeu aleatoriamente para jogar. Também já inicia o jogo com duas cartas de tesouro que podem ser cartas especiais, conferindo vantagens aos jogadores, ou cartas com ícones dos tesouros que os jogadores devem colecionar para recolher o respectivo artefato. Para recolher um tesouro um jogador deve acumular quatro cartas dele, ir até um terreno que possua o mesmo ícone e usar uma ação para trocá-las por sua “estatueta”, a respectiva miniatura. Mas os jogadores terão um grande desafio pela frente, porque lembre-se sempre disso… A ilha é proibida e amaldiçoada e quer vê-los afundar!

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    Cartas de Tesouro – iconográficas, simples e belas

    Logo no início do jogo, independente do número de jogadores, seis terrenos tornam-se alagados de acordo com as cartas compradas do topo da pilha de alagamento. A partir daí, já devem começar a bolar uma estratégia para salvar as áreas alagadas. Devem dar atenção especial aos terrenos que possuem o símbolo dos tesouros, que são dois ao todo para cada tipo, pois são a única maneira de resgatá-los. Perder os dois terrenos de determinado tesouro é um dos motivos para a derrota do grupo. Detalhe para a arte das cartelas de terrenos, todas diferentes umas das outras e todas impecavelmente lindas, sem exceção. Frente e verso representam respectivamente terreno normal (não alagado) e terreno alagado.

    Na sua vez, o jogador possui até três ações que podem ser escolhidas entre mover-se para um terreno adjacente (nunca em diagonal, a não ser que você possua uma habilidade que diga o contrário), drenar uma peça do terreno em que você está ou uma adjacente (colocando seu lado não alagado virado pra cima), dar uma carta de tesouro para um outro aventureiro que esteja na mesma peça de terreno que você está ou recolher um tesouro, já explicado acima. As cartas especiais podem ser jogadas no turno de qualquer jogador, a qualquer momento e não custam uma ação. As cartas especiais em A Ilha Proibida são duas: Fuga de Helicóptero e Sacos de Areia. A Fuga de Helicóptero é necessária para que o grupo fuja no final, após terem reunido todos os tesouros da ilha. Ah, se um dos jogadores ficar pra trás o grupo perde o jogo… Pois é, as coisas estão ficando complicadas para os aventureiros.

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    “Corram!” – Gandalf, o Branco

    Depois de realizar suas três ações é a vez do jogador realizar as duas fases obrigatórias do final do seu turno, comprar cartas do baralho de tesouros e comprar cartas de alagamento. É aí que o jogo brilha! A mecânica genial da carta Enchente e o baralho de alagamento lembra muito uma mecânica encontrada em Pandemic, outro espetacular jogo do mesmo criador e lançado dois anos antes. O jogador deve comprar duas cartas de tesouro e se ele tirar uma carta de Enchente, primeiramente o Nível da Água sobe, e é esse nível o que determina a quantidade de cartas que os jogadores devem revelar por vez do baralho de alagamento. Esse é também outro motivo para a derrota do grupo, se a marca do Nível da Água chegar ao máximo, atingindo o símbolo da caveira, adivinhe! Estão todos arruinados! Pois é, já estou me assustando só de escrever isso, é um motivo pra derrota dos jogadores à cada novo parágrafo… Essa ilha é maligna!

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    “How high’s the water, mama? Two feet high and risin'”

    Feito isso, deve-se embaralhar todas as cartas na pilha de descarte das cartas de alagamento em separado e depois colocá-las no topo da pilha de alagamento. Em seguida, são reveladas um número de cartas de alagamento igual ao valor do Nível da Água. Isso quer dizer mais terrenos indo por água abaixo a cada turno! E é aí que a mágica acontece também… Os terrenos que haviam sido revelados antes voltam a aparecer. Se um terreno que já está alagado é revelado da pilha de alagamento sua carta e peça de terreno são removidos de jogo! Preciso dizer o que acontece se a Pista de Aterrissagem sair de jogo? Maldição!

    Você pode se perguntar: ter mais jogadores no grupo pode facilitar a vitória? Negativo! Pelo contrário, as partidas que jogamos mostraram que quanto mais jogadores, mais difícil fica o jogo. Pense, cada jogador possui quatro ações e uma habilidade diferente, tudo bem, mas no fim do seu turno ele deve comprar tesouros e revelar cartas de alagamento… Conforme o Nível da Água vai subindo, calcule a quantidade de terrenos a serem alagados por rodada…

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    Os aventureiros

    Mas acalmem-se bravos aventureiros (ou deveria chamá-los loucos?), o jogo já foi desenvolvido levando em consideração as cabeças que seriam agraciadas com cabelos brancos de stress ou ainda aquelas que perderiam os cabelos… O jogo possui níveis de dificuldade. Se você não quiser se afogar na primeira viagem é aconselhável que jogue a primeira partida no nível Iniciante. Se é um jogador mais experiente, mesmo que nunca tenha jogado A Ilha Proibida, o ideal é iniciar logo no Normal. Se quiser um verdadeiro desafio, tente os níveis Elite e Lendário e boa sorte, você vai precisar! Falando em sorte, o jogo conta um pouco com ela sim, mas bem pouco e a estratégia e interação entre os jogadores deixa ela passar despercebida.

    Ah, e colocando o assunto interação entre jogadores na pauta, importante comentar, é comum nos jogos cooperativos que haja um jogador com “espírito de liderança” um pouco exagerado… Acaba que por vezes as decisões são mais tomadas por esse jogador do que pelos outros, mesmo quando é a vez desses últimos. Bom, isso acontece na vida também e para essa situação tenho uma dica: ora, trate de vestir suas calças e coloque ordem na casa! Brincadeiras à parte, o ideal é que cada um tenha espaço pra dar suas opiniões e que todos as respeitem. No mínimo cada jogador deve ter a palavra final sobre suas ações, mas é claro que também é legal ele pedir conselhos ao grupo, afinal todos estão no mesmo barco ali… Ou no mesmo helicóptero… Toda essa interação é muito bacana nesse tipo de jogo.

    Existe, ainda, uma versão do jogo para iOS que pode ser jogado solo, facilmente controlando dois ou mais personagens ou multi jogador, a qualidade é alta e é bem fiel à sua versão analógica. Recomendado!

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    Versão iOS do jogo

    Considerações finais:
    A Ilha Proibida é um ótimo jogo cooperativo para apresentar a novos jogadores. Não é tão difícil de se aprender, em poucas rodadas tudo começa a fluir rapidamente. Há bastante interação entre os jogadores na tomada de decisões, o nível de tensão é alto e a aventura vai se tornando mais empolgante conforme o final vai se aproximando. Com as variações entre os tipos de aventureiro, posição de terrenos, aleatoriedade das cartas, torna-se um jogo com alto valor de rejogabilidade. O tema se encaixa muito bem com o jogo e a arte e os componentes são muito bem produzidos. Uma ótima pedida!

    Pontos positivos:
    – Alta rejogabilidade
    – Desafiador
    – Temática bem adaptada às regras
    – Componentes belíssimos

    Pontos negativos:
    – Pode se tornar frustrante para alguns jogadores devido à dificuldade
    – Alguns erros ortográficos na versão nacional

    Ficha Técnica:
    Jogadores: 2 a 4
    Idade: a partir de 10 anos
    Duração: 30 minutos
    Tipo: caixa básica
    Fabricante/Desenvolvedora: Gamewright/DEVIR (no Brasil)
    Idioma: Português
    Preço Médio: R$ 120,00

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    Fillipe Vieira: Apenas um cara tentando encontrar seu caminho no emaranhado de ideias, sonhos e anseios que permeiam sua mente. Talvez um dia você se depare com algum jogo desenvolvido por ele. Quando esse dia chegar, é possível que esse cara tenha encontrado seu caminho. Interesses: séries de TV, cultura nerd em geral, vídeo games, ciência, história.

    1 COMENTÁRIO

    1. Grande jogo. Simples mas extremamente criativo.

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