DICAS DA MESA: CRIE SEU JOGO!

DICAS DA MESA: CRIE SEU JOGO!

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    DICAS CRIE

    Você está jogando aquela partida de fim de semana com seu grupo de amigos. No prato principal um jogo aclamado, já muito conhecido. Você analisa uma mecânica e vem aquele pensamento: “Essa mecânica poderia funcionar melhor dessa maneira…” ou ainda, “Eu poderia fazer melhor que isso…” Soberba da sua parte? Calma amigo, você não é o único. Como jogadores interessados e exigentes que somos, é normal querermos sempre que o jogo funcione da melhor maneira possível em todos os aspectos, em todas suas mecânicas, e mesmo quando o jogo já é comercializado e conhecido pelo mundo, nem sempre é assim que acontece. Todo jogo tem seu ponto forte e seu ponto fraco. Nada é perfeito… Com essa premissa eu quero aproveitar o Dicas da Mesa de hoje para motivar o caro leitor do Meeple Maniacs. Que tal criar seu próprio jogo? Já pensou nisso?

    Bom, apesar de não ser um profissional da área, efetivamente um game designer, carrego alguma experiência de anos de prática nos jogos de carta e tabuleiro, conhecendo vários tipos de mecânicas inovadoras, desde games euros a games de temática forte como os americanos. Até já me arrisquei em alguns projetos pessoais e em grupo e tive positivas surpresas com o resultado de alguns deles. Quem sabe um dia você ainda os conheça… Assim esperamos. 🙂

    Sendo assim, trarei aqui dicas e ideias na tentativa de ajudá-lo ou pelo menos adicionar aos métodos que você talvez já possua e costume usar nos seus processos de criação.

    O processo de criação obviamente requer um bom conhecimento na área e criatividade, além de algumas particularidades, gostos de cada um, logo torna-se algo muito abrangente. Na verdade não há uma fórmula para se criar um jogo de sucesso. Cada designer vai encontrar sua maneira, mas a seguir vão algumas ideias.

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    Todo jogo, por mais bem sucedido que seja, um dia não foi mais que um mero rascunho.

    Mecânicas:
    Ao todo são pelo menos 51 mecânicas de jogos analógicos, segundo o BoardGameGeek, site referência no assunto. Dar uma bela analisada nessa lista se faz necessário para qualquer um que queira dizer tranquilamente que já viu de tudo nesse mundo dos jogos de carta e tabuleiro. Ela pode dar ideias, você pode vir a utilizar uma ou mais das mecânicas em seu jogo, talvez misturar algumas e criar uma nova, quem sabe ainda inovar criando algo diferente, afinal, você conhecerá tudo o que já está catalogado. Você pode ver a lista clicando aqui.

    Mas por onde começar?

    Bom, através de tentativas, erros, acertos e observação, cheguei à conclusão de que existem duas maneiras básicas pra iniciar um novo projeto de jogo. Depois citarei outros métodos que conheço. Para um ponto de partida mais fácil, é interessante que você saiba se vai querer fazer um jogo com uma temática mais pesada ou um tipo mais abstrato de jogo. Jogos abstratos são aqueles que independem de temática, você poderia colocar uma grande variedade de temáticas sobre aquela mecânica que o resultado seria o mesmo, só mudaria a ambientação. E geralmente são compostos por pouquíssimas mecânicas, muitas vezes apenas uma, que por sua vez costumam ser simples, mas que ainda aproveitam do uso da estratégia. Costuma ser o caso dos jogos europeus. A diferença entre os dois é mais evidente no ponto de partida para a criação:

    Jogos Temáticos: Normalmente pensa-se primeiro em um tema. Cenário de fantasia, espacial, histórico, baseado em profissões, eventos cotidianos, humor, terror, ciências, esportes, jogo pra família, festas, enfim.

    Depois que o tema foi definido, começa a criação das mecânicas que melhor se adaptam àquele tema. Algumas já vêm incluídas no pacote. Por exemplo, um party game geralmente envolve cartas e forçar o jogador a fazer alguma coisa física como falar, mover-se e interagir com outros jogadores. Um jogo de fantasia medieval normalmente pede regras um pouco mais pesadas, personagens diferentes com características únicas, cartas, tabuleiro, tokens. Mas é legal também sair um pouco dos estereótipos às vezes. Assim se inova. Aqui geralmente o jogo acaba sendo composto por várias mecânicas diferentes e por vezes torna-se mais complexo.

    Jogos Abstratos: Aqui é muito simples. Escolha uma mecânica. Trabalhe em cima dela. Depois das regras concluídas ou durante o processo de criação adicione uma temática. Mas também acho que é possível que o tema venha antes e influencie na mecânica de um jogo abstrato, direcionando seu processo de criação. Pode ir acontecendo simultaneamente.

    Um método que descobri por acaso em um dia de pesquisas foi o tal do 100:10:1, desenvolvido por um designer nada lá muito famoso, Nick Bentley… Bom, ele conseguiu colocar uma de suas criações em 182º entre mais de 700 jogos abstratos no ranking do BoardGameGeek. Nada mal, não? Você pode ler o método em sua própria postagem aqui, mas eu irei resumi-lo. Na verdade é um método simples, mas interessante:

    Passo 1 (100): Primeiro você escreve rapidamente 100 ideias, conceitos básicos, sem muitos detalhes, sem pensar na qualidade. Pode fazer isso em menos de uma semana, talvez até em um único dia. Ele dá um exemplo de ideia solta que pode se encaixar nesse primeiro passo. “Mortalidade: as peças envelhecem enquanto se movem – os personagens são dados, ao invés dos costumeiros peões – a cada ‘passo’ deve-se virar seu lado para que tenha seu valor reduzido em um. Quando a face do topo do dado chegar a um o personagem morre e é seu ultimo movimento.” Não é o conceito final de um jogo, mas uma mecânica que poderia ser aproveitada na sua construção.

    Passo 2 (10): Baseado em algum critério de seleção, de acordo com o seu objetivo no design final, você escolhe 10 das 100 mecânicas e ideias e começa a trabalhar um jogo em cima de cada uma delas. Isso pode levar um bom tempo. Ele sugere 6 meses.

    Passo 3 (1): Você seleciona o mais promissor dos 10 jogos desenvolvidos dessa maneira e trabalha mais a fundo em cima dele.

    Catchup: jogo abstrato desenvolvido por Nick Bentley através de seu método
    Catchup: jogo abstrato desenvolvido por Nick Bentley através de seu método

    Se optar por esse método, sugiro que no passo 2 você já saia com ideias para menos jogos, talvez um único. Mais prático e objetivo.

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    Vencedor do Game Chef Brasil 2013

    Existe uma premiação anual que acontece em alguns países e nos últimos anos também em solo nacional. É o Game Chef Brasil. O objetivo da competição é promover e incentivar a criação de jogos analógicos. O foco costuma ser RPGs, mas também aceitam jogos de tabuleiro com ideias inovadoras. A proposta é muito interessante: “Um Tema, Quatro Ingredientes, Nove Dias”. Na competição desse ano tivemos respectivamente: Não há livro (o tema desse ano foi usar outros métodos de jogo analógico que não os RPGs que a competição focava em outros anos), absorver, indomado, reluzente, foice (4 ingredientes). Os nove dias, bom… É o tempo que se tem pra criar o seu game e entregar o rascunho para ser julgado. Enfim, a desse ano já passou, mas trouxe o assunto pra mostrar que poderia ser uma ótima maneira de surgir com uma ideia para um jogo diferenciado. Só de ler os quatro ingredientes propostos estou certo de que você já começou a ter ideias. É instantâneo. É como um brainstorm. Jogue com “todas as cartas que tiver”, tire as rédeas de sua criatividade. Desafie-se.

    O processo de criação pode ser complicado, o segredo é persistir. (Na foto, play teste de Pulse: RPG com mecânica analógica vencedor do Game Chef Brasil 2013)
    O processo de criação pode ser complicado, o segredo é persistir. (Na foto, play teste
    de Pulse: RPG com mecânica analógica vencedor do Game Chef Brasil 2013)

    Para finalizar, um conselho bacana, se você tiver alguma experiência com design gráfico, tente fazer o design do seu jogo em programas como o CorelDraw e imprima versões bem acabadas para as sessões de teste. As ilustrações ou imagens podem ser tiradas da internet até que você consiga suas próprias. Acredite, faz toda a diferença.

    Se você tiver o interesse de fazer um estudo mais aprofundado, tem um bom nível de inglês e quer ler discussões e artigos sobre o tema, uma boa pedida é visitar o site League of Gamemakers. Ele é focado na parte de desenvolvimento de jogos e é bem completo no assunto. Fica aí mais uma dica.

    E a motivação?

    Se você já está nessa de board e card games há algum tempo já sabe do boom que vem acontecendo no mercado nacional. Cada vez mais jogos inovadores são bem sucedidos nos seus financiamentos coletivos. Empresas antes acomodadas com os jogos de sempre, subestimando o público brasileiro, finalmente começam a trazer jogos de qualidade. Não houve antes hora mais adequada para novas iniciativas e ideias. E somos nós que ganhamos com tudo isso. Veja só, jogos criados de jogadores para jogadores. É como uma revolução. Quem sabe sua chance de mostrar um trabalho de qualidade possa estar aí? Se você não quiser entrar de cabeça no mercado, no mínimo terá jogos únicos, do seu agrado, para curtir um tempo com os amigos. Então, caro leitor, trate de tirar os projetos da gaveta e mãos à massa! Que acha de fritar um pouco esses miolos?

    [Atualização] A partir daqui vai meu comentário em resposta ao caro leitor, Fidel (que pode ser lido abaixo também), é um ótimo complemento à proposta desta postagem. Forte abraço a todos!

    O segredo é não desistir, continue com mais e mais testes, sempre que possível com pessoas que não se importem em ser realistas e objetivas em suas considerações sobre o jogo, jogue quantos jogos diferentes puder encarando como um estudo mesmo (atente bem às soluções de design dos grandes no meio).

    Ainda nessa parte de “estudo” (estudo ruim esse, não? heheh), procure jogar quantos jogos quanto possível que contenham mecânicas das quais você escolheu adotar para seu jogo, a partir dessa prática você vai descobrir inúmeras formas de abordar uma mesma mecânica de formas diferentes, e então, juntando informações daqui e dali, uma mecânica de um lado, uma dinâmica de outro, a sua própria pitada e criatividade, você pode sair com algo novo. Essa é a verdadeira inspiração, ela não vai cair dos céus.

    E lembre-se sempre, amigo, não é preciso “inventar a roda,” mas crie algo que entre tantas coisas já conhecidas, mas que executadas de forma diferente, acabem por revelar um novo jogo.

    Essa foi a dica da mesa da semana, espero que tenha curtido. Estamos sempre dispostos a discutir sobre os assuntos que abordamos no Meeple Maniacs. Fique à vontade para comentar, sugerir, compartilhar ideias.

    Até a próxima e não esqueça, reúna seu grupo e jogo na mesa!

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    2 COMENTÁRIOS

    1. Ótima matéria!

      Tenho dois jogos criados (e engavetados rs) e mais alguns que me fazem voltar boas casas até achar a regra perfeita…

      Continue com o bom trabalho por aqui

    2. O segredo é não desistir, continue com mais e mais testes, sempre que possível com pessoas que não se importem em ser realistas e objetivas em suas considerações sobre o jogo, jogue quantos jogos diferentes puder encarando como um estudo mesmo (atente para as soluções de design dos grandes no meio).
      Ainda nessa parte de “estudo” (estudo ruim esse, não? heheh), procure jogar quantos jogos quanto possível que contenham mecânicas das quais você escolheu adotar para seu jogo, a partir dessa prática você vai descobrir inúmeras formas de abordar uma mesma mecânica de formas diferentes, e então, juntando informações daqui e dali, uma mecânica de um lado, uma dinâmica de outro, a sua própria pitada e criatividade, você pode sair com algo novo. Essa é a verdadeira inspiração, ela não vai cair dos céus.

      E lembre-se sempre, amigo, não é preciso “inventar a roda,” mas crie algo que entre tantas coisas já conhecidas, mas que executadas de forma diferente, acabem por revelar um novo jogo.

      Obrigado pela participação, Fidel! Forte abraço, e sucesso em seus projetos!

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