ON PREVIEW: NOSFERATU

ON PREVIEW: NOSFERATU

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    pic2338335Nosferatu é um jogo de cartas lançado ano passado na Europa pela editora francesa Grosso Modo Éditions e que, neste momento, está em financiamento coletivo no Brasil, via Catarse, pela Conclave Editora. A versão que a Conclave pretende lançar aqui terá algumas diferenças em relação à versão original. A primeira delas envolve o número de jogadores, de cinco a oito, exclusivamente, permitindo agora o número de quatro a oito com uma variante nas regras para o modo com quatro pessoas. No jogo, um participante assume o papel de vampiro, o Nosferatu do título; outro é Renfield, lacaio de Nosferatu e os demais são caçadores que buscam atrapalhar as atividades noturnas do vilão através de rituais e, finalmente, eliminá-lo com a Estaca Ancestral. A identidade do vampiro é conhecida apenas por Renfield e, como acontece em jogos do gênero, a dissimulação, o blefe e as acusações unem-se à estratégia e ao trabalho de equipe para descobrir quem é o inimigo. As primeiras comparações com The Resistance já devem estar surgindo em sua mente. Entretanto, Nosferatu tem peculiaridades suficientes em sua mecânica que garantem seu lugar em qualquer estante de jogos.

    Nosferatu, Renfield e Caçador
    Nosferatu, Renfield e Caçador

    Mecânica:
    – Controle de mão
    – Parcerias

    Um dos jogadores escolhe ser Renfield. Sua primeira missão é distribuir quem será quem na partida. Ele pega uma carta de vampiro e as cartas representando caçadores em número suficiente para completar a mesa. Em uma partida com sete jogadores teremos, pois, Renfield, Nosferatu e cinco caçadores. E aí já temos a primeira grande diferença e a que mais me agradou em comparação aos jogos do gênero: o vampiro é escolhido! Geralmente em jogos com traidor/mentiroso/cylon/coisa qualquer do mal, os vilões são sorteados. O simples fato da escolha do vampiro por Renfield já desperta intriga antes da primeira carta ser sequer colocada em jogo! Em um grupo mais experiente, seja no mundo dos jogos ou em amizade, se Renfield for o jogador A, a mesa já especula: “ele dará o vampiro para B porque disfarça bem”, “o vampiro é C porque não desconfiaríamos”, “Nosferatu é o jogador D porque daquela vez que jogamos ____________ aconteceu ____________”, preencha as lacunas conforme suas histórias de jogo. Isto é metajogo, mas não existe party game sem metajogo.

    Cada jogador começa com duas cartas e compra outras duas a cada vez do baralho chamado Biblioteca e continua seu turno descartando uma carta aberta na mesa e passando outra fechada para Renfield. No sentido literal, Renfield não joga, não compra cartas, não descarta, por isso ele é alvo de críticas de muitos, chamado de inútil, inclusive. Não se iluda: a estrela de Nosferatu é Renfield! Após cada jogador realizar seus descartes, ele vira uma carta do baralho chamado Relógio que consiste de várias cartas representando noite e apenas uma simbolizando a aurora. Enquanto as noites surgirem, o jogo segue com os participantes realizando suas ações. Quando surge o Sol o turno acaba e Renfield revela o que aconteceu na noite que acabou de findar, ou seja, revela o que chegou em suas mãos.

    Setup inicial. Repare os três rituais lado a lado e no canto superior do playmat o baralho Relógio. (Foto On Board)
    Setup inicial. Repare os três rituais lado a lado e no
    canto superior do playmat o baralho Relógio. (Foto On Board)

    A mão de Renfield ou Pilha de Ação será formada pelas cartas da Biblioteca. Nela, temos Mordidas, Componentes, Fofocas e Noites. As mordidas são boas para o vampiro, isto é, caçadores não quererão passá-las, a não ser que sejam a única opção. As Mordidas na mão de Renfield serão distribuídas conforme seu critério. Cinco mordidas na mesa, vitória de Nosferatu. Até o vampiro pode ser mordido para confundir os jogadores. Mais uma sutileza na arte de ser Renfield. Componentes são as cartas que auxiliarão os caçadores para realizar Rituais, eventos que atrapalham a ação do vilão. Infelizmente, só serão úteis se, ao chegar a aurora, Renfield possuir apenas cartas deste tipo. Isto, geralmente, só acontece em noites curtas. Fofocas não tem efeito devastador imediato, mas podem acabar com a exclusividade das cartas de Componentes, impedindo a realização de algum ritual. Dica para o vampiro: em momentos arriscados, uma mera fofoca pode acabar com os planos e os estoques de componentes dos jogadores sem levantar muito alarde. Cartas de Noite ajudam Nosferatu, pois após Renfield recebê-las são colocadas no baralho Relógio, diminuindo as chances de surgir a Aurora. Noites mais longas significam vampiro com mais chances de agir.

    Enquanto a noite prossegue, Nosferatu trabalha em paz (Foto On Board)
    Enquanto a noite prossegue, Nosferatu trabalha em paz (Foto On Board)

    É dessa movimentação de descartes, cartas passadas, dia e noite que surge a paranoia. Um vampiro esperto esperará um turno longo para soltar alguma mordida em meio às outras cartas. Se for o primeiro a jogar, poderá até mesmo jogar um Componente temendo o nascer do Sol. Se isso acontecer ainda terá voto de confiança da mesa por ter jogado algo bom, levando a suspeita para cima de algum incauto caçador.

    O nascer do sol ainda gera outro momento dramático. Quem possuir a carta Estaca Ancestral decide se a passará para outra pessoa, menos Renfield, determinando quem será o novo jogador inicial ou usará a estaca para eliminar um jogador. Se matar um caçador que julgou erroneamente ser vampiro, vitória do time morcego! Nas primeiras rodadas dificilmente isso acontece, mas à medida que o jogo avança e as suspeitas vão se cristalizando na mente confusa dos caçadores, é comum a derrota pela morte inocente.

    É chegada a aurora! Tremei, criaturas das trevas! (Foto On Board)
    É chegada a aurora! Tremei, criaturas das trevas! (Foto On Board)

    Se a rodada correr a mesa toda sem que saia a Aurora, o turno também se encerrará, Renfield distribuirá os frutos da noite do mesmo modo, mas desta vez, ele decidirá quem será o primeiro jogador. Em The Resistance, o líder muda em sentido horário a cada missão. Aqui, o fato do lacaio decidir o novo jogador inicial gera mais especulação. E não à toa. Se entregar a Estaca para longe do vampiro aumentará as chances de seu mestre agir sem ser descoberto. Se fizer isto com muita frequência, levantará suspeitas. Já falei sobre a arte de ser Renfield? Ótimo.

    Visceral (Foto On Board)
    Visceral (Foto On Board)

    Considerações finais:
    Nosferatu é ágil, leve, simples de explicar e com uma temática mais envolvente para um público não iniciado do que futuros apocalípticos ou o reino de Camelot. Testei o jogo com alunos de ensino médio e fundamental, alguns sem a menor experiência em jogos de mesa, com sucesso imediato. Para não falar da roda de curiosos que se formou em volta. Em nosso grupo, jogamos com sete participantes e, ao final da sessão, testamos a variante para quatro jogadores, sem Renfield, na qual o vampiro é sorteado. Funcionou muito bem, apesar de perder um pouco do brilho de seus diferenciais, ao meu ver. Ao mesmo tempo, resolve a questão um pouco estranha do por que os jogadores entregam coisas para Renfield, um pormenor que não compromete a diversão. Vale elogiar a iniciativa de criar esta versão para quatro pessoas, aliás.

    O Relógio é outro ponto forte do jogo. A incerteza de quando surgirá o dia afeta muito as ações do vampiro que não pode esperar para sempre, o que pode ser fatal e determinante em algumas rodadas. Quanto à Renfield, não se iluda. É muito divertido jogar em sua pele. Ele escolhe o jogador inicial em turnos sem manhã, distribui as mordidas e ser o único a saber de tudo que acontece na mesa pode ser um oásis de tranquilidade mental em meio ao caos inevitável.

    Dentre outras mudanças na versão que a Conclave trará ao Brasil teremos cinco rituais, ao invés dos três que estamos utilizando e a carta Estaca Ancestral dará lugar à uma estaca em punched board aumentando o clima do jogo. Excelente, porque uma estaca em forma de carta é meio anticlímax.

    Um pequeno comentário aos amigos leitores ainda iniciantes nos jogos de mesa. Nosferatu encontra-se no Catarse, um site de financiamento coletivo, ou seja, os futuros compradores e interessados pagam uma quantia para ajudar a financiar o possível lançamento do jogo. Faltando menos de vinte dias e três mil reais para alcançar a meta, você pode ajudar a campanha com o valor de R$ 60,00, fora o frete, que dá direito a um exemplar do jogo. Se quiser investir mais, você recebe outros itens e benefícios. Escrevo isto, pois algumas pessoas já me questionaram sobre onde comprar. Você pode ajudar a trazer Nosferatu para o Brasil através do link http://www.catarse.me/pt/nosferatu.

    NOTA: em nossa sessão de análise utilizamos um playmat exclusivo para nosso uso, além de uma estaca real confeccionada para o jogo. Não são itens que acompanham Nosferatu. Nossas cartas foram feitas através dos arquivos Print and Play fornecidos pela editora e não representam a qualidade final do produto.

    Pontos positivos:
    – Temática clássica agrada até não jogadores
    – Escolher quem será o vilão
    – Renfield é o verdadeiro astro do jogo
    – O Relógio deixa a ação de cada jogador decisiva
    – Tem méritos próprios para se destacar dentre outros party games

    Pontos negativos:
    – Por que um caçador de vampiros entregaria itens para Renfield?

    Ficha Técnica:
    Jogadores: 4 a 8
    Idade: a partir de 10 anos
    Duração: 20 minutos
    Tipo: caixa básica
    Fabricante/Desenvolvedora: Grosso Modo/Conclave (no Brasil)
    Idioma: Português
    Preço Médio: R$ 60,00 (demais opções verifique na página do jogo no Catarse http://catarse.me/pt/nosferatu)

    ludopedia BGG

     

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    3 COMENTÁRIOS

    1. Conceitualmente, os jogadores não estão entregando itens ao Renfield, estão realizando ações. Inclusive o Vampiro. Mecanicamente, eles entregam cartas ao Renfield somente para preservar o segredo de suas ações realizadas. Isso é muito claro, por exemplo, quando o Vampiro entrega uma carta de mordida, indicando que ele deu uma mordida naquela noite. 🙂

      Ótima resenha! Valeu!

    2. Pois é Cristiano, era algo que estávamos discutindo durante a partida. É só aquela coisa do tentar entender a mecânica de uma forma lúdica, algo que muitos jogadores costumam fazer. Sua explicação está perfeita. É que às vezes nos pegávamos pensando que o Reinfield parecia ter muito poder, incluindo sobre os próprios caçadores, quando na verdade ele só decide o que fazer com o que tem em mãos, todas cartas escolhidas pelos demais jogadores, suas ações. O que ainda não tira a diversão de se jogar como Renfield, diga-se de passagem…

    3. Jogo ótimo, infelizmente não consegui participar do financiamento a tempo. Mas comprei uma cópia aqui em Floripa na Dragons House. Achei um dos melhores jogos de identidades secretas até agora, só perdendo para o Coup (e Battlestar Gallaticta obviamente). E achei infinitamente superior ao The Resistance.

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