DICAS DA MESA: COMO ENSINAR SEUS JOGOS

DICAS DA MESA: COMO ENSINAR SEUS JOGOS

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    DICAS ENSINAR

    A cada jogo que você adquire, juntamente com aquela caixa com arte belíssima, tabuleiro estiloso e dezenas ou centenas de componentes, meeples, tokens, tiles, marcadores, dados ou miniaturas, vem um encargo. Você é o dono do jogo? Cabe a você ensiná-lo para o grupo. Então você reúne seus parceiros de hobby, todo empolgado, monta o setup que impressiona a todos, percebe o brilho nos olhos deles refletindo a mesa de jogo e começa a explicar as regras. E continua explicando, explicando, explicando e o brilho nos olhos de seus amigos vai se esvaindo, os semblantes vão caindo, um ou outro olha para os lados, para cima, para o celular (olhe as etiquetas da mesa de jogo!) até que em algum momento você apela para um voto de confiança exclamando “galera, o jogo é legal, quando a gente estiver jogando vocês vão ver!” e, interiormente, vem a frustração de não conseguir empolgá-los.

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    O resumo de Guerra do Anel é mais ou menos assim!

    Ensinar é uma arte. Não terei a pretensão de dizer que a domino, apesar de ser professor de Matemática há duas décadas, disciplina na qual recebo alunos com todos os tipos de dificuldades e venho tendo ao longo dos anos muito reconhecimento e sucesso, felizmente. Se tem uma dica de sala de aula que posso transmitir para seus ensinamentos para o grupo de jogo é: você sabe as regras; seu grupo, não! Nunca, nunca esqueça disso! As regras, exemplos, vídeos e páginas de fórum que estão em sua cabeça, estão apenas em sua cabeça! É muito fácil cair na crença errônea de que está se fazendo entender e quando você apresenta regras e nomes sem uma sequência didática ou planejamento prévio, o resultado tende ao fracasso!

    Vamos a algumas dicas para tornar o processo de ensino de seu jogo em algo mais agradável e, acredite, sua própria compreensão dele aumentará muito. (Não por coincidência, todas estas dicas funcionam para a sala de aula também)

    Conheça seu jogo
    Pode parecer ridículo ou desnecessário escrever isto, mas não tente ensinar algo que você não domina! Ler e reler o manual apenas não é garantia de conhecimento. Obviamente, jogos mais complexos exigem muito mais preparo. Ensinar Zombie Dice é bem diferente de ensinar Mage Knight! Leia muito o manual, ele é sua fonte inicial e principal de informação, mas não fique apenas nisso! Simule partidas com você mesmo assumindo o controle de vários jogadores. Os membros do On Board tem seus próprios modos esquizofrênicos de batizar seus alter egos! Eu faço o Blue Lukita versus o Red Lukita. Fabian Antunes tem o Positive Fabian contra o Negative Fabian, Fillipe Vieira faz Paladino x Maverick… Se for um jogo para no mínimo três jogadores, assuma os três papéis! Quando em vez, invoco as habilidades do Yellow Lukita para desafiar o Blue e o Red. Simulando, você fixa as etapas de cada rodada e se depara com muitas perguntas óbvias que surgirão nas primeiras jogadas. Estas dúvidas iniciais aparecerão também em seu grupo e será muito melhor se você já tiver passado por elas. Algumas serão tão inevitáveis que você já poderá se antecipar dizendo “vocês podem estar se perguntando…” Ao fazer isso, você surpreenderá e cativará!

    Verso da caixa de Mage Knight! Não parece tão difícil? Sabe de nada, inocente!
    Verso da caixa de Mage Knight! Não parece tão difícil?
    Sabe de nada, inocente!

    Outro exercício excelente é consultar fóruns especializados com dois objetivos em mente: sanar suas dúvidas e treinar seus conhecimentos com dúvidas de outros usuários. Faça o teste, leia algumas dúvidas e tente respondê-las mentalmente. Mas cuidado! Tente identificar os usuários que conhecem bem o jogo, pois muitos que sabem menos que você tentam responder e podem bagunçar as coisas. Utilize os fóruns quando estiver seguro de seus conhecimentos. Bom conhecimento do manual, simulação de jogo com você mesmo e fóruns especializados, este é um tripé sólido para sustentar seus ensinamentos. Ah! Isso toma tempo. Não espere estrear seu jogo recebido na quarta-feira neste próximo sábado! O Love Letter, pode ser; Twilight Imperium, nem pensar!

    Vem aí o Telecurso Twilight Imperium!
    Vem aí o Telecurso Twilight Imperium!

    Crie o interesse
    Acredite, cativar um grupo de amigos que foram na sua casa com o objetivo específico de jogar é muito mais fácil do que estimular um grupo de adolescentes semi desconhecidos com as capacidades práticas da fórmula de Bhaskara. Se eu consigo, você consegue!

    Carcassonne, por exemplo. Não comece dizendo “cada jogador compra uma peça e escolhe onde ela pode ser encaixada…” Informe, crie o clima, forneça um pouco de história e vida à obra que será desfrutada. Como um filme, livro ou música, situar um jogo com o momento e local de sua criação, com seu autor e seus demais jogos, apresentar suas premiações e importância dá todo um sabor especial àquele conjunto de papelão, madeira ou plástico! Faça uma pesquisa breve, às vezes até no manual ou na caixa do jogo podem ser encontradas informações neste sentido. No site do fabricante, na Ludopedia, no BoardGameGeek, na Wikipedia, lugares para enriquecer sua apresentação não faltam. Não são poucos os que jogam Carcassonne sem saber o que seu título sequer significa!

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    Isso é Carcassonne!

    Ele fica tão melhor assim… “Carcassonne é uma citadela no sul da França com 2500 anos de história. Foi anexada à França no século XIII e é conhecida pelos seus três quilômetros de muros e mais de cinquenta torres. É patrimônio mundial da humanidade. No jogo, vamos construir um cenário medieval formado por cidades, estradas, fazendas e mosteiros, inspirados na arquitetura de Carcassonne. Ele é o vencedor do Spiel des Jahres de 2001, o prêmio alemão conhecido como jogo do ano e o mais importante do mundo.”

    Pronto, um pouco de história e ambientação, uma descrição sucinta de seu tema e sua importância. Pode até acrescentar um pouco mais, mas não transforme isso em uma palestra!

    Quando você cria o interesse, a assimilação das regras fica muito mais simples. E Carcassonne é mais fácil que Bhaskara! Além disso, após a introdução, apresente os objetivos, como se vence, como se pontua, o que pesará mais ao final da partida, forneça algumas dicas para apimentar a narração.

    Simule
    Você já cumpriu as duas etapas anteriores. Excelente! Já pensou que talvez seja mais fácil ensinar aquele jogo simulando com os demais participantes enquanto explica? Funciona muito bem com jogos mais complexos, com muitos componentes e nomezinhos para tudo. Tente ensinar alguém a dirigir explicando todos os detalhes com o futuro motorista sentado na sala de jantar ou ensinar alguém a nadar enquanto espera na fila do cinema! Por mais evoluídos que sejam seus dotes didáticos, há momentos que a prática é indispensável.

    Cada vez que preciso ensinar Game of Thrones The Board Game, simulo três rodadas até mesmo manipulando o baralho de Westeros para que saiam as cartas com o que preciso explicar, como recrutamento, suprimentos, aposta nas trilhas de poder e ataques selvagens. Diluir estes acontecimentos pelas três rodadas com as etapas regulares de colocação de ordens de cada turno, permite que os jogadores tenham contato com as situações diferentes, mas fixando as mecânicas ao mesmo tempo! Ou você fica narrando tudo sozinho e depois explica todas as minúcias e exceções na base do monólogo? Boring!

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    Game of Thrones. Simular é preciso, viver…

    O demônio (da chatice) está nos detalhes
    Detalhes, detalhes, detalhes! Evite! Existe momento para eles! Sabe aquele amigo que você pergunta como foi o dia e ele conta? Ou o clássico cara que narra o filme em todos os detalhes? TO-DOS OS DE-TA-LHES? Comece com o básico, com o que acontecerá a cada rodada, com os fundamentos da mecânica. No momento, estou no processo mental de planejar o ensino de Runewars para o meu grupo. Um jogo repleto de detalhes em um manual com 40 páginas. Vocês acham que falarei em duelos, quests, desenvolvimentos de fortalezas e mais um monte de coisas, sem fundamentar bem as ordens, os bônus de supremacia, as cartas de estações e seus efeitos recorrentes? Se você não conhece o jogo, saiba que são etapas que acontecem a cada rodada, quer os jogadores queiram ou não. Aproveitando a deixa, sempre deixe claro o que cada jogador pode fazer em sua vez, essas são as engrenagens básicas do jogo. Outra, não descarte a possibilidade de fazer uma sessão inteira apenas para treinamento e simulação se você achar necessário. Dependendo do jogo, existe a hora de aprender e a hora de tentar ganhar. Alguns manuais pecam por isso, tentam olhar o quadro com lupa sem dar uma noção geral e inicial.

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    Um herói, uma runa, uma cidade e um exército em Runewars. (Foto On Board)

    Comande a mesa
    Monte o tabuleiro e organize todos os materiais necessários. Aproveite para conversar frivolidades enquanto isso. Sempre haverá um jogador mais curioso ou afoito que irá fazer perguntas sobre esse ou aquele componente. Além de correr o risco de ter de repetir várias coisas depois na explicação geral, o que será maçante para você, isso estimula o comportamento ansioso da mesa. Este tempo é útil para deixar aquela carga de curiosidade inicial ir aliviando e quando chegar o momento de ensinar, o grupo já estará mais calmo. Sabe aquela cara de criança quando ganha brinquedo? Fazemos a mesmíssima expressão quando abrimos nosso jogo novo e o grupo a faz outra vez no dia da estreia! Criança muito agitada não aprende!

    Oba! Chegou o Eldritch Horror!
    Oba! Chegou o Eldritch Horror!

    Após absolutamente tudo montado, dê mais um tempo para todos darem mais uma olhada geral. Quando você começar precisará da total atenção deles. Exija atenção e não permita que fiquem brincando com componentes. Olhe a regra número um da etiqueta na mesa de jogo, novamente! O espaço para perguntas você decide o melhor, conforme o jogo e o grupo. Não se acanhe em dizer que tal dúvida será sanada posteriormente. Não interrompa sua linha de raciocínio para atender a todos, atenha-se ao seu planejamento.

    O equilíbrio de como e quando ensinar será adquirido aos poucos. Não há receita fixa. Ensino jogos para muitos novatos graças aos trabalhos em escolas e aos eventos, principalmente às BIG Board Nights na Grande Florianópolis. Quando o grupo é desconhecido é mais difícil ter o timing para ensinar a todos. Neste caso, algumas diretrizes gerais, como as apresentadas acima, auxiliam. Com preparação, calma e conhecimento, o processo de ensino terá melhorias imediatas e você e seu grupo ganharão em diversão e entretenimento!

    Abraços analógicos!

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    9 COMENTÁRIOS

    1. Muito bom, as vezes o óbvio não é tão óbvio como aparenta ser. Transpor o manual para um cenário real de jogo de fato é uma arte que exige sensibilidade. Parabéns

    2. Muito bacana o tópico. Eu gosto muito de ambientar o jogo, dar um porque do que vai acontecer, contar o objetivo e o que faz para vencer.
      Não generalizar os componentes chamando-os de “pecinhas” (peças roxas do Lords of Waterdeep são magos, por isso estão na Blackstaff Tower, e mostro a peça).
      Gosto também de listar em tópico as regras mais mecânicas ou que seguem certa ordem (dominion são três fases A – Action, B – Buy e C – Clean, ou 4 ações se for explicar em português – A – Ação B – Baixar, C – Comprar e D – Descartar), se alguém esquece o que fazer, reforço o ABCD.
      Eu falo objetivo como ganhar pontos, mas dependo do jogo regras de desempate, regras de contagem de pontos deixo para falar no meio do jogo para o final, pois estarão mais familiarizados com a mecânica, e poderão ir em busca de pontos ( Agricola eu ensinei pontuação no final do 3o Harvest)

    3. Excelente texto, gostei muito das dicas. Apesar de escrever sobre jogos, confesso que tenho uma certa dificuldade para explicá-los pessoalmente.

    4. Alguns realmente são bem complicados, Aline. Cada jogo e cada público é uma abordagem diferente. Mas é bom para irmos nos acostumando, até mesmo ao ler as regras, e irmos já pensando como colocar na visão didática!

    5. Ótimas dicas, essa sempre foi a parte mais desafiadora para mim, com certeza tentarei colocar em pratica essa abordagem.

    6. Bacana, Gabriel! Criando o clima certo, a “classe” já fica mais interessada! Abraços!

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