SOBRE A MESA: AGRICOLA

SOBRE A MESA: AGRICOLA

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    pic259085_lgEuropa, século XVII. O Velho Mundo começa a se recuperar da terrível Peste Negra que matou um terço de sua população. As famílias aos poucos voltaram a crescer, melhorar suas condições de vida, incrementar suas moradias e fazendas, plantar e produzir carne para consumo. Este é o cenário transmitido nas primeiras páginas do manual de Agricola, conceituadíssimo jogo de Uwe Rosemberg, lançado em 2007, no qual cada jogador representa uma família europeia em 1670 com o objetivo final de conseguir o melhor estilo de vida, englobando a melhor cabana, a maior produção vegetal e pecuária, além de aumentar o número de membros através de seus filhos.

    Isso em um panorama geral. Olhando mais de perto, você realizará ações como assar pão, arar e semear um campo, trocar as paredes e teto de sua cabana, coletar madeira, alimentar a família, dentre outras atividades peculiares à vida no campo. Eis o ponto que desagrada a muitos: a ambientação do jogo, parece torná-lo algo infantil ou desinteressante. Eu mesmo não me agradei em um primeiro momento, mas não se engane! Agricola é um euro médio, com muitas tomadas de decisões que, aliado ao fato de ser relativamente rápido, as tornam fundamentais. Por outro lado, o mesmo tema familiar agrada a outro grande grupo, já que pode ser ensinado à crianças e apresentado para todas as faixas etárias. Existe, aliás, um modo Familiar, mais simples e recomendado para iniciantes, com pouquíssimo texto.

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    Mecânica:

    – Alocação de trabalhadores
    – Seleção de cartas
    – Controle de mão
    – Fechamento de área

    Cada jogador começa sua família com apenas um casal, dois discos representando-o. A cada rodada, cada uma dessas “pessoas” pode realizar uma ação, colocando-a em um espaço específico do tabuleiro. Apenas um trabalhador para cada espaço por vez. Agricola é formado por vários tabuleiros, nos dois principais existem espaços que representam as ações possíveis, algumas fixas, outras em cartas que são colocadas aleatoriamente antes do início da partida e que são reveladas uma a uma a cada rodada, ou seja, a cada vez que jogar, as ações disponíveis de imediato serão diferentes. Nada de vir com a estratégia toda pronta, você precisará se adaptar.

    Algumas das ações são arar um campo, semear, coletar madeira, junco, barro, pedra, construir melhorias para sua fazenda como cercas e estábulos, mudar as paredes de sua cabana de madeira para argila, por exemplo, pescar e à medida que o jogo avança e as novas cartas vão sendo reveladas, expandir a família, criar animais como ovelhas, gado e javali, dentre outras.

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    Quando todos os trabalhadores tiverem sido colocados nos espaços desejados e realizarem suas ações, eles retornam para casa, sinalizando o final de mais uma rodada. Em momentos marcados no tabuleiro, o fim de algumas rodadas significa também hora da colheita, quando os campos semeados produzem grãos ou vegetais, os animais procriam e, principalmente, sua família precisa ser alimentada.

    Cada membro da família consome dois alimentos, não interessando qual seja e os meios para se conseguir isso são vários. Cozinhar animais ou vegetais, assar pão, ou até mesmo consumir alguns alimentos crus, pois deixar alguém passar fome significa tomar uma penalidade na forma de uma carta de mendicância que pesará muito na pontuação final. Para maximizar a produção de comida, fornalhas e fornos de diversos tipos podem ser construídos, além de outros modos de obtenção, conforme as cartas de ocupações disponíveis, mais sobre isso depois.

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    Tudo vale pontos, ou melhor, deixar de fazer algo custa pontos. Cada espaço não utilizado em sua fazenda, representada por um tabuleiro individual, faz perder pontos. Não ter um mínimo de grãos, animais, vegetais ou pastos, também. Ou seja, você precisa se diversificar. Plante, crie animais diversos, melhore sua cabana, construa melhorias, alimente sua família, faça-a crescer. Mais membros são mais trabalhadores, consequentemente, mais ações possíveis, entretanto, mais bocas para alimentar e maior a necessidade de montar uma estratégia eficaz de produção alimentar.

    A maior crítica ao jogo está neste ponto. Muitos se sentem escravos da comida, alegando que Agricola acaba se tornando uma corrida unilateral por alimento. De certo modo, faz sentido, mas considero ter lógica tematicamente. Não serão poucos os momentos em que você realizará ações pensando exclusivamente em melhorar sua produção, a engine food, como é chamada nos fóruns estrangeiros, mas são tantas as possibilidades que se você deixar sua família passando fome será falha em seu planejamento, não na mecânica do jogo.

    Além das ações possíveis nos tabuleiros, cada jogador recebe uma mão de sete cartas de Ocupações e sete Melhorias Menores, isto no modo normal de jogo. Cada Ocupação é basicamente uma profissão distinta que permite seguir um caminho diferente dos demais jogadores. O Catador de Frutas, por exemplo, faz você receber um alimento sempre que for coletar madeira, o Mestre Cervejeiro converte um grão em três alimentos, bônus exclusivos conforme o que você escolher colocar em jogo. As pequenas melhorias são aprimoramentos das condições de vida e trabalho, como a vara de pesca ou o machado. São três baralhos enormes, Fácil, Interativo e Complexo, que podem ser misturados à vontade e ainda existem vários decks opcionais disponíveis no mercado, alguns representando regiões específicas da Europa com ocupações e melhorias próprias. Sim, estou falando de rejogabilidade quase infinita!

    Considerações finais:
    Minhas linhas finais, desta vez, serão diferentes dos demais reviews. Você deve estar se perguntando se ainda vale a pena investir nele. Minha resposta é simples: sim! Após Caverna ter sido lançado, jogo conhecido como “Agricola 2.0”, muitos acham que o investimento nele não mais se justifica. O que se comenta por aí é que quem não gostou de Agricola, gostou de Caverna e dos que amam o primeiro, metade gostou do segundo. Não joguei Caverna, neste momento o exemplar do grupo deve estar viajando rumo ao Brasil, mas cada vez que leio sobre ele, dá vontade de jogar mais Agricola, pois nem arranhei a superfície das possibilidades com tantas combinações de cartas. Pensando no preço, você não achará um Caverna por menos de 400 reais, Agricola se encontra por 240. Ainda existe muito campo para Agricola, com licença da piadinha. Sua disponibilidade, preço e simplicidade maior são bons atrativos e favorecem sua aquisição.

    Leia também, Trilha Sonora para Agricola

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    Pontos positivos:

    – Altíssima rejogabilidade
    – Simples de aprender e níveis de dificuldade ajustáveis
    – Sensação de acabar rápido
    – Tema leve, familiar e até educacional
    – Animeeples! (em algumas edições)

    Pontos negativos:
    – Preocupação constante com a comida
    – Pontuação negativa desanima
    – Tema afasta muitos jogadores

    Ficha Técnica:
    Jogadores: 1 a 5
    Idade: a partir de 12 anos
    Duração: 120 minutos
    Tipo: caixa básica
    Fabricante/Desenvolvedora: Z-Man
    Preço Médio: R$ 240,00

     

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

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    8 COMENTÁRIOS

    1. Tá aí um jogo que desde que conheci o hobby tenho MUITA vontade de jogar. A ilustração que diz ser infantil é um ponto que bastante me atrai e a temática não posso deixar de comprar com os jogos digitais da série Harvest Moon.

    2. Rapaz to ansioso pelo agrícola acho que vai cair bem com meu grupo e pretendo usar ele antes do the gallerist chegar( ver se o pessoal vai se acostumando)

      Tenho de dizer que os Euros tão ganhando meu coraçao, já fui muito “ameritrasher” mas vc conseguir ver que tua estratégia se torna a sua vitória e um prazer imensurável.

    3. Jogar euros é inevitável! Tem MUITA coisa boa no mercado e algumas pessoas privam-se de conhecer este universo por preconceito com os temas ou componentes! Mais um caminho sem volta!

    4. O que você acha do desequilibrio das cartas de Melhorias Menores e Ofícios?
      Li que o Deck “World Championship 2011” corrigi isso, já ouvi você comentando que tem TUDO do Agricola… esse, ou outros Decks são realmente mais equilibrados?

      Abraço.

    5. Finalmente tive a oportunidade de conhecer o Agricola com o lançamento deste pela Devir e é realmente um jogão! Possivelmente um dos melhores, ao lado no Terra Mystica, que já tive a oportunidade de jogar.
      Entretanto vejo alguns probleminhas: a) Em minha opinião o fato da escolha da ordem dos jogadores ser determinada somente pelo 1º, e depois simplesmente seguir a ordem horária, não faz jus a um jogo tão bom, já que esta é determinante para realização das ações; e b) As cartas de Melhorias Menores e Ofícios são muito desequilibradas (destas falo somente do Easy Deck com o qual fiz todas a minhas partidas)…
      Aí fica minha pergunta pra você Lukita que sei que comprou vária (se não me engano todas) as expansões, alguma resolve esse problema de desequilíbrio? Li que a do “Campeonato Mundial de 2011” foi feita pra resolver isso, ela vale a pena? alguma outra expansão vale a compra?
      Acho o jogo bem redondo e salvo essa questão do desequilíbrio que pode ser minimizado pelo Draft não vejo necessidade de expansões, mas se existir alguma realmente interessante possivelmente eu compre…

      Abraço.

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