SOBRE A MESA: ZOMBICIDE

SOBRE A MESA: ZOMBICIDE

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    O apocalipse zumbi aconteceu! Hordas infindáveis de mortos-vivos caminham pelas ruas com uma fome sem fim, atrás de carne fresca e suculenta. A sua, preferencialmente. Os poucos humanos restantes tentam manter-se vivos. Para tal, a busca por comida, remédios e armas é uma necessidade diária. Enquanto os suprimentos ficam mais e mais escassos, os zumbis são cada vez mais numerosos, sinal de que o Time Humanidade vem perdendo integrantes em batalha a uma taxa assustadora.

    Bem-vindos à Zombicide, o jogo de tabuleiro que é um fenômeno de vendas, sucesso, polêmicas, número de fãs e detratores. Não há como falar dele sem esperar uma enxurrada de opiniões favoráveis ou contrárias. Resolvi encarar o desafio de colocar minhas impressões, pois a cada dia surge um novo interessado nele. Pouquíssimos jogos podem declarar isso, admita! Não é o único jogo de zumbi no mercado, talvez nem o melhor, então seu sucesso não vem do tema que está em todos os lugares. Mas foi lançado no momento certo, com o visual certo, pensando no público certo e com o clima certo!

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    Os sobreviventes e zumbis da primeira temporada

    Zombicide é um jogo cooperativo no qual os jogadores assumem os papéis de sobreviventes tentando realizar missões diversas em cenários diferentes em um tabuleiro modular, ou seja, as peças são montadas conforme a especificidade da missão. Com quantidade maior ou menor destas peças, os cenários permitem partidas mais rápidas ou mais longas. Há variação também nos objetivos, quantidade de locais de surgimento de zumbis, dentre outras customizações. Além das diversas missões prontas nos manuais, existem dezenas e dezenas delas no site da empresa, conteúdo criado por fãs e a possibilidade de você mesmo criar as suas aventuras. Misture tudo isso com dezenas de combinações de sobreviventes, número diferente de zumbis que podem sair em cada jogada, itens e personagens extras opcionais e estamos falando de rejogabilidade tendendo ao infinito.

    E os zumbis? Muitos, muitos deles. MUITOS! MUUUUUITOS! E de vários tipos. Lentos, rápidos, gordos, deformados, tóxicos (na expansão Toxic City Mall), resistentes, caninos (vendidos separadamente) e em breve, magrelos, cortados ao meio, corvos! Um zoológico decrépito tentando acabar com você e com seu grupo. Nas primeiras rodadas serão poucos, vagando lentamente pelo cenário, gerando a falsa ilusão nos novatos de que o jogo é fácil. Espere alguns turnos e a turba crescerá! Serão dezenas deles em sua volta, um exército podre, lento e inexorável.

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    Zombie Street (Foto On Board)

    Visualmente, isso impressiona. As miniaturas de qualidade e em quantidade chamam a atenção. O fortíssimo apelo visual de Zombicide trouxe muita gente para o universo dos jogos de mesa. Outro mérito! A arte e as cores dos mapas, tokens de carros, fichas de personagens, cartas de equipamentos e armas com forte apelo pop são destaques também. Eu que trabalho com muita divulgação de jogos de mesa para novatos, primordialmente com adolescentes criados com videogames, esse é o jogo! Para alguns deles, Zombicide já virou a opção número um de presente de aniversário no lugar do mais novo Call of Duty Motherfucker Warfare ou Assassin’s Creed CCXLVIII.

    Mecânica:
    – Alocação de pontos de ação
    – Cooperação
    – Rolagem de dados
    – Gerenciamento de mão
    – Tabuleiro modular
    – Eliminação de jogadores
    – Poderes variáveis dos jogadores

    Em sua vez, cada jogador pode realizar até três ações com seu personagem. As mais comuns são movimentar, realizar uma busca, atacar, abrir uma porta… Com exceção da busca de itens, as demais ações podem ser realizadas em qualquer quantidade e combinação. Alguns personagens permitem ações adicionais como Amy que tem uma ação gratuita exclusiva para movimento ou Ned que faz buscas gratuitamente, permitindo que suas três ações possam e devam ser usadas para outras coisas. Ao subir de nível com a experiência adquirida com o extermínio de zumbis e com o cumprimento de objetivos, mais ações ou habilidades ficam disponíveis. Desta forma, seu personagem evolui e fica mais perigoso, a má notícia é que o nível de dificuldade do jogo se adapta à evolução dos personagens.

    Terminadas as ações de todos os sobreviventes é a vez dos zumbis agirem, controlados pela inteligência artificial das regras. Movendo-se apenas uma zona por vez ou atacando se estiverem na mesma área de um jogador, suas trajetórias são previsíveis, permitindo o planejamento prévio pelo grupo de heróis. Não entrarei em detalhes, mas os mortos-vivos procuram sempre os alvos visíveis, depois orientam-se pelo barulho. Ao final da ativação de todos os inimigos, novos zumbis surgem com a compra de uma carta de um baralho próprio para cada ponto de surgimento deles no mapa e é aqui que a evolução dos personagens faz valer a dificuldade progressiva da partida. Se pelo menos um personagem estiver no nível amarelo, um após o básico, os zumbis surgirão conforme a faixa amarela da carta comprada, e assim para cada nível de evolução. Cada zumbi eliminado fornece um ponto de experiência. Mate mais, ganhe mais pontos e sua evolução fará surgir mais inimigos ao final de cada rodada. Círculo vicioso!

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    (Foto On Board)

    E como você extermina mortos-vivos nesse mundão condenado por Deus? Usando armas de combate corpo a corpo e armas de ataque à distância. Cada uma delas informa a distância em que é eficaz, a quantidade de dados a serem lançados, o número que precisa ser obtido para ser um sucesso e o nível de dano. Vejamos o machado (fire axe) como exemplo. Seu alcance zero, classifica-o como arma corpo a corpo. Ao atacar com ele você rola um dado e se obtiver 4, 5 ou 6 é considerado um sucesso. Em armas que rolam mais dados, cada sucesso isolado é um acerto, isto é, você poderá mandar vários zumbis ao mesmo tempo para o descanso eterno com uma rolagem apenas. Pense na famigerada serra elétrica e seus cinco dados de uma vez! O nível 2 de dano significa que balofos podem ser atingidos, além dos lerdos e corredores que são nível 1. As abominações são um bicho a parte, deixemo-nas quietas!

    Zombicide-item-cardsConsiderações finais:
    Mas onde está toda a polêmica? Até agora em lugar algum. Vamos falar dos ataques à distância. Eles funcionam da mesmíssima maneira descrita acima, contudo quando você pretende atirar em uma zona com zumbis e sobreviventes, seus tiros acertam seus infelizes amigos. Sempre. Se você conseguir dois sucessos atirando em uma área com um amigo seu que nela esteja, cercado por trinta zumbis, os dois tiros atingem o sobrevivente, matando-o! E esta é a regra mais debatida e odiada de todo o jogo. Há centenas de páginas de fóruns sobre isso e estou falando sério. De um lado, os que dizem ser a regra mais estúpida de todos os tempos; de outro, os defensores de sua funcionalidade mecânica. Confesso que antes mesmo de comprar meu exemplar já havia lido o manual e já odiava isso. Li muitos tópicos a respeito coletando as opiniões dos mais experientes e pensava em regras da casa antes mesmo de colocar as mãos na caixa. E aconteceu o que muitos alertaram nos fóruns: a regra funciona no jogo. Ela não faz o menor sentido realisticamente, desafia a lógica e é ridícula. Fica ainda pior em algumas situações particulares, acredite! Mas funciona e simplifica ao adotar um único processo para todos os tipos de ataque. Além disso, se você pudesse mirar e escolher os alvos tranquilamente, Zombicide seria um estande de tiro no qual os personagens ficariam sempre atirando e as armas corpo a corpo perderiam a utilidade. Existem, no entanto, habilidades e itens que permitem que você escolha seu alvo.

    Shhhh! (Foto On Board)

    Os advogados da temática alegam que você não consegue mirar tranquilamente em uma situação onde os zumbis estão agarrados ao seu pescoço, ainda mais em um grupo de pessoas comuns as quais os personagens representam. Concordo. Mas esta regra é assim por questão puramente mecânica. Não vamos esquecer também, e sempre falo isso em minha explicações para os novos jogadores, que Zombicide não é um jogo de miniaturas, mas um jogo com miniaturas. Não obstante, é inevitável ver um zumbi em um canto de uma zona e seu sobrevivente no outro canto da mesma zona e não pensar que estão longe e que seu herói tem tempo hábil para pensar ou mirar. O jogo não pressupõe isso, ele considera que zumbis e sobreviventes na mesma zona estão sempre engajados, lutando e se debatendo. Uma vantagem do fogo amigo certeiro é que ao contar com isso, você pode planejar com mais exatidão seus próximos turnos e não se colocar em situações desnecessárias ou indesejáveis de risco. Quando o jogo começa, fique certo, todo esse debate permanece em segundo plano.

    Como ver os dois lados de algo é inerente ao meu estilo, não gosto do fato do personagem Phil que é policial, isto é, treinado em armas de fogo e em situações de risco, não ter o benefício da mira em curto alcance, pelo menos. Entendo que Wanda, que era garçonete quando o apocalipse zumbi começou, não tenha tal capacidade, mas se é para ser temático, um policial com uma pistola consegue acertar um morto-vivo a um metro de distância em vez do amigo. Isso está, inclusive, na arte da tampa da caixa da primeira temporada. E o jogo é temático! Há poças de sangue temáticas pelos mapas!

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    “Say my name!” Walt… Heise… Spencer??!! Personagem que será lançado na terceira temporada em 2015

    Há mais coisas que não gosto. Você descartar um item e ele sumir do mapa, as buscas serem fontes inesgotáveis de itens, dentre outras, mas há muito mais coisas que gosto. Sua simplicidade, mas sendo extremamente desafiador, o clima cheio de referências ao cinema, séries de TV, quadrinhos e videogames, a arte e a qualidade dos componentes, a rejogabilidade absurda, além de poder jogar a mesma missão várias vezes, pois ela sempre será diferente já que as buscas e o surgimento dos zumbis mudarão a cada partida, fora as dezenas de missões, a troca dos personagens, a possibilidade de misturar tiles, sobreviventes, tipos de zumbis e equipamentos e, mais importante, a diversão. Sim, a diversão. Aquilo que faz com que muitos metidos do meio, tipinho que existe em qualquer atividade, fiquem indignados com o sucesso do jogo. E quem escreve aqui é um cara que tem como jogo favorito Terra Mystica e ama jogos euro, pesados e mega demorados! O maior e mais importante fator ao se avaliar um jogo de tabuleiro, a diversão, transborda em Zombicide e, afinal, não estamos todos neste hobby por boas horas com os amigos?

    Leia também Trilha Sonora para Zombicide

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    Zombicide é sempre sucesso nos eventos… (Big Board Night)
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    … e nas escolas. (On Board na Escola)

    Pontos positivos:
    – Altíssima rejogabilidade
    – Muito divertido
    – Excelente porta de entrada para o público dos videogames
    – Estilo pop de toda a arte e componentes
    – Simples e rápido de ensinar
    – Desafiador
    – Excelente, também, em modo solo

    Pontos negativos:
    – a regra dos ataques à distância frustra à primeira vista
    – em algumas partidas o azar pode ser preponderante
    – eliminação de jogadores muito cedo é possível

    Ficha Técnica:
    Jogadores: 1 a 6
    Idade: a partir de 13 anos
    Duração: varíável
    Tipo: caixa básica
    Fabricante/Desenvolvedora: Guillotine Games/Galápagos (no Brasil)
    Preço Médio: R$ 240,00

     

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    4 COMENTÁRIOS

    1. Excelente review. Estou doido atras de um exemplar e espero ansioso que a Galápagos traga logo essa nova remessa!
      Sobre os “narizes empinadinhos” que odeiam a popularização do hobby por ter poder aquisitivo alto e querer deixar o hobby para poucos, concordo com cada perfurada que você desfere com suas palavras.
      O que importa é a simples e pura diversão. Se tem gente que acha que é algo como uma religião, “privilégio para poucos”, deixa eles lá e vamos matar e pilhar zumbis!
      Vlw irmão! Continuando a ler mais reviews bacanas…

    2. Muito obrigado. Esse tipo de comportamento metido, infelizmente, existe em qualquer hobby e meio! Mas não tem problema, a gente se diverte do mesmo jeito! Precisando entrar em contato, procure-nos no Facebook. Abraços!

    3. Glr to meio confuso com esse jogo até hj ele é mais pro Tabuleiro,ou só o livro ja é suficiente pra jogar esse game? poruqe eu sempre curti mestrar as partidas sem nada só no livro eu prefiro imaginar os bonecos

    4. Olá, Zombicide é um jogo de tabuleiro, suas regras foram desenvolvidas para jogar como tal, mas nada impede que você as adapte para jogar como um RPG, afinal, temos personagens com habilidades diferentes e rolagens de dados em um cenário propício à uma aventura interessante. No entanto, aconselhamos fortemente que você conheça melhor e consiga seu exemplar do jogo. E se você ainda não é um iniciado no hobby, você pode fazer dele seu jogo de entrada, hein, que tal? Obrigado pela participação, abraço!

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