SOBRE A MESA: TALES OF THE ARABIAN NIGHTS

SOBRE A MESA: TALES OF THE ARABIAN NIGHTS

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    pic486114Imagine-se em uma grande aventura. Daquelas cheias de reviravoltas, grandes acontecimentos, romance, perseguições, mistérios e drama. Imagine-se interpretando o personagem principal dessa trama e que você deve decidir como reagir a cada acontecimento no desenrolar da história. Como você se livraria do bando de ghouls famintos? Como trataria do problema da solitária princesa? Como escaparia dos soldados após ser confundido com um criminoso? Bom, é isso o que o jogo de Eric Goldberg, Tales of the Arabian Nigths, propõe. Uma viagem fantástica pelas famosos contos das Mil e Uma Noites, onde o jogador decide quais caminhos seguir, quais cidades, montanhas, mares e florestas visitar, e como reagir aos diversos desafios da jornada. Um jogo de muita imaginação e encantamento que promete alta rejogabilidade e grandes emoções. Ficou curioso?

    Bem vindo a uma história de caminhos sem fim. Uma história que se costura a inúmeras outras e que nos leva ao fantástico, ao misterioso e ao apaixonante. O Tales of the Arabian Nights que jogamos e analisamos aqui é título de 2009, de Eric Goldberg em parceria com Anthony J. Gallela, Kevin Maroney e Zev Shlasinger e publicado pela Z-Man Games (a versão original é de 1985) e foi um tremendo sucesso no meu coração e no coração de vários dos meus colegas de mesa.

    O jogo tem como base as milenares histórias da coletânea árabe que ficou conhecida como O Livro das Mil e Uma Noites, e coloca o jogador no papel de alguns dos seus mais famosos personagens: Aladim, Simbad, Ali Babá e a própria Sherazade, entre outros, representam o jogador no mundo do jogo. Não está a par do que se trata as Mil e Uma Noites? Dê uma navegada rápida pela internet antes de continuar, há bastante material sobre isso e vale a pena conhecer, afinal, como já disse, o jogo se estrutura em cima dessas histórias.

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    Os personagens de Arabian Nights

    O tabuleiro é um vasto mapa que inclui o mundo árabe, Índia e parte da África e Europa. Um sistema de trilhas demarcam os caminhos possíveis de seguir, tanto por terra como por mar, entrecortados por marcadores que indicam desertos, montanhas, florestas, cidades e lugares mágicos. O jogo conta com fichas de personagens com uma lista de reações possíveis e outra de perícias que podem ser aprendidas ou perdidas conforme o jogador progride na trama. Conta ainda com três baralhos de cartas que representam tesouros, condições e encontros possíveis; uma matriz que serve para determinar quais reações são possíveis para determinado encontro e, por fim, um enorme livro de 300 páginas e com nada mais nada menos que 2600 pequenos contos que descrevem parte da história que você e seu personagem viverão: o fabuloso livro dos contos.

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    O tabuleiro e alguns componentes.

    Mecânica:
    – Rolagem de dados
    – Movimento ponto a ponto
    – Interpretação de papéis
    – Poderes variáveis dos personagens

    O desenrolar do jogo é muito simples na verdade. O grande charme e o grande barato está em fazer a história acontecer. Para isso, nada como um pé na bunda inicial! Cada jogador inicia com uma quest, uma carta que lhe dá uma motivação para deixar a segurança e os confortos de Bagdá (o ponto de partida de todos os jogadores). A partir daí tudo pode acontecer, o jogador pode ignorar sua quest ou fazer o possível para completá-la. De qualquer forma, a medida que se move pelo mapa vai revelando e resolvendo cartas de encontro que podem ser, desde o mais simples ao mais inusitado. O movimento é do tipo ponto a ponto e um jogador pode mover-se um número de casas “x” de acordo com a riqueza que possui, que pode ir de pedinte a fabulosamente rico.

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    A gloriosa Bagdá, o início e fim da sua aventura!

    A partida se desenvolve com base em diversas variáveis. Tudo começa com a carta de encontro. Digamos que encontre um profeta (mas poderia ser um objeto, um lugar, uma cidade, uma criatura). Dependendo de onde você estiver no mapa (ou se é manhã, tarde ou noite no baralho de encontros) a carta indicará um número diferente a ser consultado. Depois disso, um dos jogadores lê em uma tabela o que geralmente seria um adjetivo para aquele encontro: profeta: medroso, malvado, louco, por exemplo. A partir daí a matriz de encontros é consultada e o jogador deve dizer como reagirá. Dependendo do encontro apenas algumas opções estão disponíveis: atacar, fugir, enganar, contratar…etc. Com base nessa reação e uma rolagem de dados exigida, um dos jogadores lerá o trecho correspondente no livro dos contos, onde está o resultado da sua reação, ou seja, um trecho da sua história.

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    Cartas de encontro

    Complicado? Um pouco. No início é fácil demorar-se procurando entre tabelas e matrizes o número correspondente à sua história. O manual sugere a divisão de tarefas, o jogador à direita do jogador atual fica encarregado de ler a matriz de encontros enquanto o jogador à esquerda lê o livro dos contos. Outra sugestão é deixar com que apenas dois jogadores fiquem responsáveis por essa tarefa. Seja como for, depois de duas ou três tentativas todos já estão afinados com a mecânica, tornando o processo mais ágil, o que garante que todos foquem em acompanhar o desenrolar das histórias de cada um.

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    Simbad, o Marujo, e suas perícias iniciais

    O resultado de um encontro pode ser o ganho de riquezas, um tesouro, uma condição ou a aquisição de alguma perícia. As riquezas servem para que o jogador se mova mais pelo mapa. Os tesouros são cartas de itens maravilhosos que concedem alguma vantagem especial, como por exemplo, um tapete voador! As condições são cartas que lhe dão vantagens ou desvantagens, dependendo do que aconteceu na história. Casar-se, ser aprisionado, perseguido, abençoado ou amaldiçoado são algumas dessas condições. Por fim, as perícias. As perícias servem para que o jogador possa tentar superar os desafios de alguns encontros, aumentando a chance para que o seu personagem “se dê bem” naquela parte da aventura. Nem sempre isso é possível e, algumas vezes, mesmo as perícias certas não te garantem o melhor dos resultados. Não falei disso antes, mas cada jogador pode montar seu personagem, antes do início da partida, comprando três perícias iniciais para ele. Além disso, pode escolher o sexo do personagem (independente do personagem que ele pegou), o que acaba interferindo nos resultados possíveis de algumas histórias. O interessante é que o personagem vai evoluindo a medida que se aventura, isso lembra os RPGs, onde o jogador “monta” seu personagem conforme o gosto e vai aprimorando-o com o passar do tempo.

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    O tapete voador e a lâmpada mágica são alguns dos fabulosos tesouros que podem ser encontrados.

    Por ser narrativo, cabe aos participantes algum esforço para valorizar e tornar mais interessante as suas histórias, afinal o jogo trata disso. Mas não se preocupe, dessa vez diferente do RPG, não há necessidade de interpretação dos jogadores, embora isso possa tornar o jogo mais interessante ainda. Em alguma mesas isso pode ser mais utilizado, enquanto em outras pode ser ignorado por completo. Cabe saber como é na sua mesa de jogo.

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    (Foto On Board)

    Algumas situações que ocorrem com os personagens são bobas e despretensiosas, resultando em encontros não muito inspiradores. Outras, no entanto, são verdadeiras aventuras que vão ser lembradas entre seus amigos, muito tempo depois de saírem da mesa. Certa vez, um de nossos colegas do On Board encontrou uma monstruosa baleia enquanto navegava em busca de uma ilha onde viveria um monstro poderoso que guardava um grande tesouro. A baleia destruiu a sua embarcação e o deixou à deriva no mar. A reação que ele escolheu foi inusitada: entrar na baleia! O riso foi geral, mas ele obteve sucesso! O resultado da sua aventura nas entranhas da baleia eu não vou revelar, prefiro evitar spoilers… Quem sabe você ou um de seus colegas de mesa descubram logo, logo em uma das suas sessões, mas devo dizer que a atitude do nosso colega marcou aquela sessão. Essa cena resume o espírito de Tales of the Arabian Nights. O autor ressalta a importância de reunir-se para contar uma história e encenar uma aventura, muito antes de vencer ou perder. É claro que nem todas as histórias e reações são engraçadas, algumas são emocionantes, outras singelas, outras trágicas. É um jogo que se preocupa muito mais com a experiência de jogo do que com o resultado final. No entanto, nele também é possível vencer ou perder.

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    Para quais aventuras aquele caminho levará?!

    Para vencer, cada jogador deverá coletar uma certa quantidade de pontos de história ou de pontos de destino. Quando fizer isso, deverá voltar até Bagdá e declarar que vencerá o jogo. Outros jogadores jogam uma última rodada e podem tentar disputar a vitória caso tenham completado os seus pontos e consigam voltar à Bagdá a tempo. A quantidade de pontos é determinada por cada um dos jogadores, antes de iniciar a partida. Em segredo, os jogadores marcam quantos pontos de cada tipo precisarão juntar para ganhar (obrigatoriamente, tendo que somar um total de 20 pontos). O jogo pode ser bem longo, o que nos levou a fazer partidas menores onde baixamos o objetivo para 10 pontos, e não ficou ruim, não.

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    (Foto On Board)

    Considerações finais:
    Sou apaixonado por Tales of the Arabian Nights. Tenho uma certa preferência por jogos narrativos e esse foi amor à primeira vista. No entanto, não é um jogo para qualquer mesa. Alguns jogadores ficarão insatisfeitos com o seu ritmo, outros com a falta de controle sobre a evolução do seu personagem. Alguns poderão se sentir frustrados porque as coisas não estão dando certo em suas aventuras. Às vezes é difícil dizer o que uma reação fará e mesmo algumas perícias acabam não sendo úteis em situações que você juraria que seriam. Tudo isso somado, pode limitar um pouco o seu grupo de jogadores. É um título indicado para aqueles que gostam de se divertir em grupo, sem uma preocupação exagerada com a vitória ou a derrota. O objetivo aqui é, antes de tudo, contar uma boa história. É realmente muito divertido ver as encrencas que cada um dos personagens vai se metendo e de como saem delas. Os desafios e as possibilidades são imensas, garantindo que uma partida nunca seja igual a outra. Os 2600 contos que vão se combinando entre si garantem uma vida praticamente ilimitada ao título. É um jogo simples em sua essência, limitando a fazer os personagens se moverem pelo mapa e decidirem como reagir aos encontros, o que o torna acessível à maioria dos jogadores. No entanto, cabe um aviso, o nível de inglês exigido é bastante alto. São palavras mais rebuscadas, que não são usadas com frequência em uma conversa, por isso, ou tenha um ótimo inglês ou tenha um inglês razoável e o Google Translate ligado ao seu lado.

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    (Foto On Board)

    O site da empresa disponibilizou algumas variantes para o jogo, como a versão do contador de histórias e a versão solo. A versão do contador de histórias incentiva usar os parágrafos do livro dos contos apenas como uma base para que você possa contar a sua versão da história. Assim, nesse modo, é incentivado que os jogadores tentem dramatizar, embelezar e detalhar mais os eventos ocorridos no parágrafo base. A partir do desempenho na sua narração, você e seus colegas poderão se conceder prêmios de recompensa. A versão solitária, por sua vez, permite que você jogue a versão padrão do jogo sozinho, tentando completar duas quests, alcançar os pontos de história e destino e tornar-se fabulosamente rico; tudo isso antes que o baralho de encontros termine. São formas de estender ainda mais a vitalidade do título e que certamente são bem vindas, especialmente a variante solo.

    Pontos positivos:
    – Mecânica simples
    – Rejogabilidade praticamente ilimitada
    – Você e seus amigos podem encenar uma aventura emocionante

    Pontos negativos:
    – Alto nível de inglês exigido
    – Imprevisibilidade pode incomodar
    – Pode ser muito “parado” ou aleatório para alguns

    Ficha Técnica:
    Jogadores: 1 a 6
    Idade: a partir de 13 anos
    Duração: 120 minutos
    Tipo: caixa básica
    Fabricante/Desenvolvedora: Z-Man
    Idioma: Inglês (Forte dependência do idioma)
    Preço Médio: R$ 280,00

     

    2 COMENTÁRIOS

    1. Algum boato para lançar uma versão em português? (br ou pt)? Sonho meu…

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