SOUND BOARD: TRILHA SONORA PARA LOVE LETTER

SOUND BOARD: TRILHA SONORA PARA LOVE LETTER

    por -

    SOUND LOVE LETTER

    Você já parou para pensar que Love Letter é um jogo triste? Dificilmente. Bom, deixe-me explicitar, sua temática é triste. Todos o jogamos como jogo de entrada, como aquecimento ou encerramento da noite de jogos, em meio aos amigos, com muitas risadas e momentos de histeria quando você usa a habilidade do Guarda e retira seu colego do jogo em instantes, por exemplo, ou quando você zomba de seu oponente diante da proteção temporária da Aia. Deste modo, é fácil esquecermos a ambientação proposta. Por trás de tudo isso, temos uma linda e triste princesa, auto trancafiada em seus aposentos em meio à lágrimas e solidão. E nós, jogadores, mancebos do reino de Tormenta, tentamos suavizar o infortúnio daquele pobre coração através de nossas cartas apaixonadas. Ao final da partida nem sequer chegamos a saber se o destino será feliz ou não. A Princesa Annette se apaixona pelo vencedor, fato, mas daí a concretizar o romance é outra história.

    O amigo leitor já deve ter percebido nesta coluna ou no podcast Meeple Maniacs que ao falar de trilha sonora para jogos de tabuleiro, utilizo, comumente, algumas propostas ou soluções alternativas. Pois bem, no artigo de hoje, gostaria de propor uma releitura de Love Letter. Vamos dar um grau maior de sofisticação, condizente com o status principesco da protagonista e também melancólico, em respeito ao seu coração partido diante da prisão injusta de sua mãe. Troque a cerveja pelo vinho e receba seus amigos com as sugestões musicais abaixo.

    Não sabemos ao certo quando se passa a ação do jogo. Pelo figurino, deduzo século XVIII, começo do século XIX, no mais tardar. Mas para darmos o tratamento sonoro adequado que a bela Annette merece, vamos usar e abusar do romantismo do século XIX e forçando um pouco, chegaremos até o início do século XX com o impressionismo. Sim, estou utilizando mais uma vez música erudita, minha maior paixão. Quem sabe ainda não converto mais alguns ouvintes ocasionais? Se consegui com a maluquice de Ligeti em Eldritch Horror, desta vez deverá ser muito mais fácil.

    51ACluVC5RLÁlbum: Chopin: The Nocturnes, Claudio Arrau
    [link para o álbum]

    Existe uma peça do polonês Frédéric François Chopin que, simplesmente, apelidei de “Balada para Annette”, tamanha a adequação do clima da obra com a princesa! É o Noturno nº 1, opus 9. Um Noturno é uma peça musical, geralmente para piano solo, inspirada pelo clima da noite, como seu nome sugere, extremamente melancólica e introspectiva. Chopin foi o expoente máximo da forma na primeira metade do século XIX. Hora de pegar o fone de ouvido, fechar os olhos e ouvir o trecho abaixo:

    OUÇA UM TRECHO DO NOTURNO Nº 1 OP. 9 DE CHOPIN:

    Essa interpretação matadora que você acabou de ouvir é do chileno Claudio Arrau, meu pianista favorito desde que tinha 14 anos de idade, ao lado de Wilhelm Kempff. Arrau é famoso por suas leituras de Chopin e seu álbum com a integral dos Noturnos do compositor polonês é item obrigatório em qualquer coleção de música clássica. Logo na sequência deste disco você terá o famosíssimo Noturno nº 2, dentre outros 120 minutos de melodias belíssimas e muita sensibilidade. Dignos de uma princesa.

    No entanto, há uma outra obra, desta vez do polêmico e primeiro “pop star” da história da música, o húngaro Franz Liszt, em sua série de suítes para piano chamada Anos de Peregrinação que preciso usar. Au lac de Wallenstadt do Primeiro Ano de Peregrinação, Suíça, até hoje, vinte anos a ouvindo e ainda não consigo descrever a sensação agradável que me passa é fundamental em nossa seleção de hoje. Gosto de imaginar a Princesa Annette, após receber a primeira carta de amor, em uma tarde ensolarada, caminhando feliz ao lado dos lagos do castelo, esquecendo um pouco das tristezas recentes de sua vida.

    OUÇA UM TRECHO DE AU LAC DE WALLENSTADT DE LISZT:

    cover170x170Álbum: Classics for a Rainy Day
    [link para o álbum]

    Para não fazer com que você adquira os Anos de Peregrinação, o que até recomendo, pois é música de extrema qualidade, momentos de destaque da carreira de Liszt e um dos discos que mais ouvi na vida (em todo caso está aqui o link), apresento uma coletânea que contém a mesma versão pelas mãos do também húngaro Jenő Jandó que você ouviu acima. Não sou fã de coletâneas, ainda mais de música erudita, mas esta compilação, além do Lago Wallenstadt, tem muita coisa boa e que nos servirá muito bem para nosso Love Letter “chic no último” e ainda oferecerá a oportunidade de você conhecer outros compositores ou saber quem escreveu algumas melodias imortais da história da música.

    Erik Satie é outro grande nome do piano melancólico e suas Gymnopédies são mais uma referência neste tipo de ambientação que estamos buscando. Você certamente conhece a peça abaixo.

    OUÇA UM TRECHO DA GYMNOPEDIE Nº 1 DE SATIE:

    Ainda temos Debussy, Schumman, Rachmaninoff, mais Chopin, Grieg, uma belíssima seleção. Basta cortar a última faixa, retirada do Concerto para Piano nº 23 de Mozart que considero destoada do resto do álbum. Amo Mozart, mas seu classicismo não cabe aqui. O austríaco seria melhor representando, neste caso, por sua Fantasia em Dó Menor, K. 475, mesmo assim, forçando a barra.

    Pois bem, amigos, experimente em sua próxima sessão de jogo, ao colocar Love Letter na mesa, usar as dicas apresentadas. Não tirará a diversão do jogo, mas dará um novo ar, acrescentando força ao seu universo que muitas vezes é esquecido. Deveria até valer um coração de bônus!

    Para facilitar, este e outros artigos do Sound Board agora incluem uma playlist o Spotify com faixas selecionadas por mim.

    PLAYLIST SELECIONADA:

    Abraços analógicos.

    SOUND BATMAN CHOPIN

    NOTA: apresentarei sempre os álbuns com links para a iTunes Store por questão pessoal.

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    ARTIGOS SEMELHANTES

    4 COMENTÁRIOS

    1. Que gosto musical impecável, Lucas.
      Gostei demais, nunca joguei Love Letter, mas venho sempre aqui para ter esses ótimas indicações. Excelentes escolhas.
      E obrigado novamente pelo post.

    2. Que bom, meu amigo! Eu que agraço o carinho e a audiência! Gosto demais de escrever estes artigos por aliar duas grandes paixões! Já vou até lhe adiantar o próximo. Na semana que vem, vamos para o Egito antigo, hehe!

    3. Fantástico Lukita. Você mais uma vez impecável nas indicações das músicas. Conheci recentemente Love Letter e fiquei me imaginando nas situações do jogo, essa releitura que você fez ficou perfeita. Parabéns e estou ansioso pela próxima indicação. E saiba adorei Ligeti. Excelente.. Abraços

    4. Que bom, meu amigo! Grande alegria receber este tipo de feedback, ainda mais nesta seção a qual tenho grande carinho. De Ligeti para Chopin é facinho, desce macio, hehe! Na semana que vem vamos para o antigo Egito aproveitar um dos novos lançamentos da Galápagos.

    Deixe um Comentário