ANALYSIS PARALYSIS: O JOGO POR FORA DA CAIXA

ANALYSIS PARALYSIS: O JOGO POR FORA DA CAIXA

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    AP JFC

    Dentro das caixas de seus jogos favoritos existem tabuleiros, cartas, tokens, dados, cubos, meeples, tiles… Fora delas, existe o Universo. Claro que o conjunto das coisas que estão nas caixas dos seus jogos está contido no conjunto das coisas do Universo, entretanto não estou aqui para falar de teoria básica dos conjuntos, mas para compartilhar como passo boa parte do meu hobby de jogos de tabuleiro longe das caixas, tendo diversão com algum jogo mesmo estando longe dele, afinal, o tempo é curto, o grupo nem sempre pode se reunir, dentre outras particularidades que a vida adulta nos proporciona. Antes de começarmos quero avisar que muito do que comentarei serve apenas para parte dos jogos, não para todos.

    Alguns dos jogos que recebi de minhas últimas compras foram Panamax, Fire in the Lake, Ikusa, Lords of Vegas, Gears of War, Memoir 44 e Imperial Assault, dentre alguns outros mimos. Ao selecionar estes itens, percebi que além da qualidade dos jogos eu estava querendo colecionar universos diferentes. O que começava a me fascinar era a possibilidade de vivenciar ambientes distintos e poder começar a usar os jogos de tabuleiro, além do aspecto lúdico e mecânico, como passagem para outras épocas ou realidades, assim como o cinema ou a literatura me propiciam.

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    Hijo de p***, segundo os espanhóis!

    Isso começou a ganhar dimensão com Francis Drake, jogo que leva o nome do famoso navegador inglês odiado pela coroa espanhola. Falei brevemente sobre ele, o homem, em meu review e em nosso vídeo. Nos bastidores, assisti a todos os documentários que encontrei e li um bocado de textos sobre sua vida e a navegação na época. Durante nossa sessão de jogo, pontuava algumas curiosidades aqui e acolá, conforme o desenrolar da partida ia permitindo as deixas. O que, aliás, recomendo, conforme escrevi nas dicas para ensinar jogos. [leia aqui] O importante é que, para mim, tudo na caixa do jogo passou a fazer mais sentido, a ter mais cor e significado. Os anos marcados no tabuleiro, a Rua Plymouth, o Pelican, o Golden Hind. Toda leitura que fiz afastado do jogo engrandeceu demais aquele punhado de componentes. Além disso, todo esforço das pesquisas feitas pelo designer passou a ser mais valorizado, senti-me até mais digno, sem pedantismo, em jogá-lo, ao passar por uma pequena parte do trabalho de ambientação que ajudou no nascimento desta obra.

    A dedicação foi ainda maior com Twilight Struggle. Mesmo sendo grande curioso da História, muitos dos fatos ficam esquecidos e poder estudar novamente todo o conturbado período da Guerra Fria foi uma experiência gratificante. Isso refletiu na partida subsequente desta obra-prima e a cada carta comprada, (quem conhece esses jogos do estilo card driven sabe que cada carta coloca um acontecimento histórico real) poder associar as pessoas, fatos e dados com aquele pedaço de papel, deu vida ao jogo e ajudou a entender as implicações e escolhas mecânicas de muitas situações. Para a Guerra Fria foi aproximadamente uns dez dias de leituras e vídeos, leia-se diversão proporcionada por Twilight Struggle mesmo longe da caixa.

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    Tabuleiro de Twilight Struggle. Reparem os presidentes americanos e soviéticos ao topo que amo ficar lembrando os nomes

    E assim percebi que minha encomenda de Panamax, Fire in the Lake, Ikusa, Lords of Vegas, Gears of War, Memoir 44 e Imperial Assault era na verdade Canal do Panamá, Guerra do Vietnã, cassinos e Las Vegas, Gears of War (universo fictício), Segunda Guerra Mundial e Guerra nas Estrelas (outro universo fictício).

    Os universos fictícios geram um efeito interessante. Os fãs sabem todos os detalhes de suas franquias favoritas, personagens, mundos, armas, dróides, monstros, magias e gostam de revelar fatos curiosos sobre elas durante as partidas. Se você sabe das minúcias do universo Star Wars entenderá porque o piloto Arvel Crynyd no jogo de miniaturas X-Wing tem aquela habilidade. Se você não sabe o motivo, poderá se divertir do mesmo jeito, mas eu gosto de jogar as coisas com mais sabor. Como disse no primeiro parágrafo, estou relatando um hábito pessoal.

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    Olha o Arvel chegando triunfalmente em O Retorno de Jedi

    Tão divertido quanto saber o que os River Trolls “disparam” em seus ataques à distância em Warhammer: Diskwars (você que procure essa!) é entender porque você pode entrar em Port Royal em Merchants & Marauders mesmo estando com sua cabeça a prêmio pela coroa inglesa. Se seu jogo tem alguma inspiração histórica real, como no segundo exemplo, juntamos diversão e educação!

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    Port Royal no Caribe, século XVII

    Há algumas semanas atrás meu estudo foi sobre os bastidores e as situações que antecederam a Primeira Guerra Mundial para o jogo Diplomacy! Uau! Dá de estudar aquele caos político durante um ano inteiro e ainda sentir-se confuso. Não quero que os jogadores de nossa sessão deste clássico sejam apenas os controladores das peças brancas ou pretas. Quero que se sintam um pouco o peso da responsabilidade como Nicolau II ou Guilherme II. Bem, no caso do Guilherme seria mais o peso da irresponsabilidade (piadinha para os ratos de História).

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    Artes dos líderes dos países envolvidos na época do jogo Diplomacy que mandei para os membros do On Board.

    1Estou agora completando a terceira semana de leituras e vídeos sobre a Guerra do Vietnã para Fire in the Lake, jogo que apresenta o exército americano, o Vietnã do Sul, o Vietnã do Norte e os vietcongues em uma disputa delicada pelo controle da região em conflito, envolvendo questões militares, políticas e econômicas e que integra muito bem o delicado jogo de “alianças” entre Estados Unidos e o regime de Saigon contra os “VCs” e o governo de Hanói. Para compreender as inspirações e opções do jogo, alterno entre o material histórico com a leitura do manual e fóruns, pois ele é extremamente rico e complexo. É impressionante como uma atividade se favorece da outra. Para o quase quarentão aqui, que cresceu nos anos pós-Vietnã, a mera observação da caixa do jogo já gera um bombardeio mental de sons, músicas, imagens de guerra, da contracultura, de cenas de filmes e até dos meus brinquedos de infância inspirados nos veículos militares do conflito. Ao acrescentar todo o background histórico, esta caixa belíssima vira uma verdadeira máquina do tempo. A vontade em querer saber mais sobre os grandes conflitos da humanidade acabou aumentando meu interesse por jogos históricos, como os do catálogo gigante da GMT Games, por exemplo, famosos pela complexidade e atenção às minúcias.

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    Próximas atrações históricas por aqui…

    Muita gente compra um jogo pela influência de seu universo ficcional. Star Wars, Star Trek, Warhammer, o Cthulhu Mythos, a Terra-Média e Game of Thrones são alguns dos primeiros nomes que me vêm à lembrança e que já inspiraram dezenas de jogos de tabuleiro em conjunto. Acrescente outros filmes, séries, livros, videogames ou quadrinhos e temos uma gama muito ampla de títulos que têm suas fontes e escolhas mecânicas ou temáticas prontamente já reconhecidas pelos fãs quando pegam certa carta ou quando leem alguma regra que é percebida como reflexo do universo em que se situa. Nestes casos, o “esforço” em conhecer o ambiente veio antes da aquisição do jogo e foi, repito, um dos motivos de opção de compra. Por outro lado, no mundo real, os jogadores esquecem ou não se atentam que muitos dos outros jogos tem algo a ser pesquisado, conhecido ou relembrado. Seja como for, são informações que enriquecerão sua experiência à mesa e trarão boas horas de informação e conhecimento mesmo longe do jogo ou de seu grupo de amigos.

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    Cartas de Senhor dos Aneis LCG

    Existe ainda uma outra categoria de mundos criados para os próprios jogos de tabuleiro, como o mundo de Terrinoth, onde se passam jogos como Runewars, Descent e Battlelore, por exemplo, mas nestes casos o fluff, conjunto de histórias sobre o mundo em questão, geralmente e infelizmente não é bem explorado, com exceções notórias aos jogos de miniatura, destacadamente Warhammer e Warhammer 40000, cuja importância mereceu figurar como exemplo acima, dado o volume e qualidade de material produzido, inspirando vários outros produtos entre jogos eletrônicos, RPGs, jogos de tabuleiro e card games. Quando a empresa, entretanto, não fornece base para nosso conhecimento do universo do jogo, não podemos fazer nada.

    Não vá também ficar querendo achar motivo de pesquisa para tudo. Catan não tem quase nada de informação sobre a ilha em si e não é porque tem tijolo que você estudará a história deste artefato cerâmico! Bom, se quiser…

    Se você pensar os jogos de tabuleiro como uma forma de expressão, assim como as artes, e a evolução na qualidade deles, perceberá que fornecerão diversão, informação e reflexão do mesmo modo quando lemos um livro ou assistimos a um filme. Ao adicionarmos pesquisas e leituras extras, quando possível, potencializaremos ainda mais seus valores culturais, mesmo fora da mesa.

    Abraços analógicos.

    NOTA: As opiniões dos autores da seção Analysis Paralysis são pessoais e não refletem, necessariamente, a opinião dos demais colaboradores do site.

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    7 COMENTÁRIOS

    1. Lukita, que artigo excelente! Meus parabéns.
      Realmente uma boa dica a seguir para curtirmos ainda mais aquele determinado board game.

      Aproveitando, gostaria de deixar a sugestão para mais uma coluna. Nela você indicaria livros, artigos, filmes, documentários, etc para enriquecer ainda mais a experiência para determinado título. Basicamente o que você já faz. Hehehe!

      Abraço.

    2. Valeu, Igor! Essa eu respondi na Ludopedia, hehe!

    3. Excelente artigo!
      Sugiro que se torne uma coluna fixa, abordando um jogo de cada vez e explorando fatos e curiosidades sobre o seu contexto histórico ou ficcional.

    4. Muito obrigado! Seria muito bom mesmo! Valeu pela sugestão!

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