SOBRE A MESA: MICE AND MYSTICS

SOBRE A MESA: MICE AND MYSTICS

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    Prepare-se para embarcar em um conto fantástico cheio de aventuras em um mundo repleto de magias e mistérios. Entre na pele (ou nos pelos) de Collin, Nez, Tilda, Maginos, Filch ou Lily, valiosos heróis leais ao rei Andon, que jaz adoecido por parte dos planos maquiavélicos de Vanestra. Você e seus amigos serão a última esperança do reino dos homens contra a ameaça da rainha das trevas!

    Mas há um porém…

    Devido à urgência das circunstâncias, os heróis tiveram que fugir do castelo do rei para reunirem forças antes de enfrentarem o inimigo. E a inusitada solução de fuga mostra-se um novo desafio. Nossos bravos heróis, através de um feitiço, foram transformados em diminutos ratos! “O outrora conhecido castelo, agora se avultava como a casa de um gigante”.

    Entenda por que você vai passar a valorizar mais os botões da sua camisa, enjoar à vista de queijo suíço e descobrir o quão difícil pode ser enfrentar uma barata na seção Sobre a Mesa, desta vez com Mice and Mystics.

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    Prepare-se para um épico de proporções diminutas!

    Mecânicas
    – Movimento em área
    – Cooperação
    – Rolagem de dados
    – Poderes variáveis dos jogadores

    First things first… Vamos à parte burocrática da coisa. Mice and Mystics vem com dois livros em sua caixa básica, o manual de regras e o livro de histórias com o nome Tristeza e Lembrança, que passa pelo início da jornada dos nossos heróis felpudos até o desfecho desse primeiro arco. O manual de regras traz todas as regras que formarão a base das mecânicas que veremos no jogo e que discorrerei aqui, já o livro de histórias conta com onze capítulos, cada um deles representando uma partida e com um conjunto de regras específicas que podem modificar as regras base do manual.

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    O objetivo dos jogadores é se aventurar pelos capítulos, cada um sendo uma partida separada, mas que jogados em sequência formam uma grande campanha embalada por uma intrigante história. Basicamente, no início de uma partida, os jogadores verificarão a quantidade de “ratos-heróis” que poderá ser usada, e então devem escolher quais irão controlar. É importante que um dos jogadores leia a introdução daquele capítulo pra que todos sintam-se mais envolvidos pela ambientação, que por sinal é um ponto forte do jogo. Depois de feito o setup para aquele capítulo (os tabuleiros que serão usados, posição das miniaturas, distribuição dos equipamentos e habilidades iniciais de cada rato-herói) verifica-se todos os personagens presentes no bloco de sala inicial e determina-se a ordem de ação de cada um deles através das cartas de iniciativa sorteadas em uma sequência. E a aventura começa!

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    Em Mice and Mystics, de forma muito semelhante a outros jogos no estilo dungeon crawler, durante o turno de um jogador ele pode se movimentar, fazer uma ação comum e ainda fazer uma ação livre, em qualquer ordem. Cada rato pode se movimentar um número de espaços pelo bloco igual ao seu valor de movimento impresso em sua carta de rato-herói somado ao valor de 1 a 3 tirado na rolagem de um dos dados de ação. As ações possíveis além do movimento são as seguintes:

    Fugir: Se já tiver se movido, o rato pode usar uma ação de fuga para mover-se novamente.
    Batalhar: Os ataques em Mice and Mystics normalmente são efetuados com a rolagem de dados de ação contra inimigos no mesmo espaço ou em um espaço adjacente ao atacante para ataques corporais ou contra qualquer inimigo no mesmo bloco de sala para ataques à distância. O jogador deve rolar um número de dados igual ao valor de batalha impresso na carta do atacante. Para os ratos-heróis esse valor pode ser melhorado com equipamentos, geralmente uma arma. Cada face no dado com um símbolo de espada ou de arco (dependendo do tipo de ataque da arma ou magia que o jogador estiver utilizando) representa um acerto. O defensor deve rolar um número de dados igual ao seu valor de defesa e ignora um acerto para cada símbolo de escudo que cair nos dados.
    Buscar: Ao executar a ação de busca, o jogador rola um dado de ação. Se cair o símbolo de asterisco (ou estrela) no dado, ele compra a carta do topo do monte de busca. É possível fazer apenas uma busca bem sucedida por bloco de sala. As cartas de busca incluem equipamentos, “sortes”, truques, pergaminhos, que ajudarão os jogadores, mas também existem cartas de traição, que podem prejudica-los.
    Recuperar: Se o rato estiver sofrendo um efeito negativo como “Atordoado” ou “Na Teia”, o jogador pode usar a ação de recuperar para remover o efeito.
    Explorar: É a ação padrão para que os ratos se movam de uma sala para a outra se houver uma ligação entre elas. Essa ação só pode ser feita se não houver lacaios no bloco onde estão e quando executada por um dos ratos, todos irão juntos para a sala seguinte.

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    A estonteante arte dos tabuleiros…

    Entre as ações livres estão:

    Compartilhar: Ao executar a ação de compartilhar, o rato pode livremente trocar cartas de busca ou marcadores de queijo (mais sobre eles a seguir) com outro rato que esteja no mesmo espaço ou em um espaço adjacente.
    Equipar: Esta ação serve para mover cartas das áreas de equipamento para a mochila e vice-versa. Ambas as áreas possuem um limite de número de cartas, três para a mochila e limite de áreas específicas para os equipamentos que os ratos podem equipar (mãos, cabeça, tronco…).
    Subir de Nível: Sempre que os jogadores tirarem o símbolo de queijo nas rolagens de dado durante o combate, esteja ele executando um ataque ou defesa, ele recebe um marcador de queijo. Durante o seu turno, como uma ação livre, o jogador pode fazer com que seu rato suba de nível gastando seis desses marcadores de queijo. Quando um rato sobe de nível, ele recebe uma nova habilidade à escolha do jogador dentro das permitidas pela sua classe de personagem.

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    Vai um queijinho?

    O turno dos lacaios, os inimigos dos ratos-heróis, e sua “inteligência artificial” são mais simples. Salvo algumas exceções (geralmente devido a uma alteração nas regras de acordo com o capítulo jogado), normalmente lança-se um dado de ação para determinar seu movimento e ele vai em direção ao herói mais próximo. Se o lacaio tiver um herói dentro de seu alcance ao final do movimento, ele normalmente desferirá um ataque contra aquele herói. Se mais de um tiver dentro desse alcance, ele ataca o herói que estiver mais na frente na iniciativa e ainda não tenha sido atacado naquela rodada.

    Assim como os ratos-heróis, os lacaios também acumulam marcadores de queijo quando conseguem um símbolo de queijo em rolagens de dados durante os combates. No entanto, os marcadores conseguidos pelos lacaios vão para a “roda de queijo dos lacaios”. Ela tem a forma de um relógio com seis espaços para esses marcadores.

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    Quando a roda estiver completa, ela provoca uma onda de lacaios, que é descrita na carta de confronto revelada a cada vez que um novo bloco de sala é explorado. Outra forma de preencher essa roda de queijo é quando ocorre uma rodada completa, ou seja, todos os personagens jogam sua vez na iniciativa, e não há nenhum lacaio no bloco em que os heróis se encontram. Ainda existem as temíveis, horripilantes, pavorosas, baratas gananciosas… “Mata! Mata!” Sim, essas baratas devem ser exterminadas com prioridade máxima! Quando acertam os ataques em seus alvos, ao invés de causarem dano às suas vidas, elas roubam queijo que vai direto da reserva do herói para a roda de queijo dos lacaios!

    Outra consequência de quando a roda de queijo dos lacaios se completa é o avanço do marcador de ampulheta na sequência de páginas do capítulo… Se esse marcador chegar na mesma página do marcador de “fim” e os heróis não tiverem alcançado as condições de vitória, os ratos perdem o capítulo. Sabe quando você se perde na leitura de um livro por ficar muito tempo parado em um determinado capítulo sem ler e tem que voltar pro início e reler tudo pra se lembrar? A sensação é parecida. Agora me diga, as baratas são ou não são perigosas? Quer ver aquelas voadoras… Sorte que não tem dessas aqui.

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    Considerações Finais
    Você é daqueles que não curtem jogos com rolagem de dados? Talvez esse jogo não seja pra você. Em muitos jogos os dados são bem aplicados nas mecânicas e não chegam a ser tão determinantes durante a partida. Embora os dados sejam bem incorporados em algumas situações em Mice and Mystics, o problema é que deve-se rolar os dados para tudo. Tudo! Para mover-se, para atacar e defender, para lançar feitiços, para se fazer buscas, para fazer ações especiais e fugir de situações críticas durante os capítulos. Pode ajudar em deixar os obstáculos mais emocionantes, mas também pode ser muito frustrante, principalmente levando-se em consideração a dificuldade do jogo. Não engane-se pelo visual bonitinho, Mice and Mystics é um jogo difícil. Se você não acha isso, pode ser que você não esteja jogando corretamente algumas das regras, tenha recebido a bênção dos deuses dos dados, esteja passando direto por alguns objetivos opcionais ou você simplesmente é um ás dos board games, o famoso bad motherfucker.

    O jogo tem uma apresentação fantástica. A produção dos componentes é excelente, a arte é linda, parecem pinturas em um tom de fábula ligeiramente sombria/sóbria. É um exemplo de inovação no quesito criatividade. Talvez você já tenha visto vários jogos em cenários de fantasia e exploração de masmorras (dungeon crawler), mas há algo de diferente em Mice and Mystics e não está somente no mais óbvio, que seria a questão do enredo que leva os jogadores à se aventurarem como ratos em um mundo onde tudo é gigantesco e temível diante de suas formas frágeis. Ainda se falando de criatividade, é muito divertido ver os utensílios usados pelos nossos queridos ratos-heróis como equipamentos. Entre eles estão os escudos de botão e de moeda, o elmo de dedal, o peitoral de casca de noz, o palito de dentes e a agulha rapieira. Os ratos também podem usar um garfo de jantar como catapulta, fazendo uma uva de munição, ou um barbante e anzol como gancho para alcançar lugares antes inacessíveis. Da mesma forma, ameaçadores inimigos como baratas, ratazanas e aranhas dão o ar da sua graça, isso sem falar na ótima solução para que Brodie, o desprezível gato que patrulha o castelo, seja representado no tabuleiro de jogo.

    Como já citado antes, a história é um ponto forte em Mice and Mystics. Ela é envolta em mistérios que manterão os jogadores presos à narrativa, querendo desvenda-los. Por outro lado, como é uma história que não sofre grandes alterações de acordo com as escolhas dos jogadores, o jogo perde bastante na questão da rejogabilidade. A boa notícia é que as expansões que já existem pro jogo trazem não só outros capítulos da história como muitos componentes para adicionar à sua experiência, incluindo miniaturas de novos lacaios e ratos-heróis.

    Então, se você está à procura de um bom desafio cooperativo, uma produção de qualidade com belas miniaturas, dados, tokens e arte em geral, uma história interessante, um jogo bem executado (mas que depende um pouco de sorte), e acima de tudo, um “family friendly” (pra toda família, jogo aconselhável para qualquer idade, para você jogar com seus pequenos, mas se divertir também), Mice and Mystics pode ser uma ótima opção.

    DICA: Confira a dica de trilha sonora para Mice and Mystics aqui.

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    Pontos Positivos
    – Produção de alta qualidade
    – Aconselhável para qualquer idade
    – Desafiador
    – História envolvente
    – Pode ser jogado por apenas um jogador

    Pontos Negativos
    – A dependência de sorte nos dados pode ser um pouco frustrante
    – Baixa rejogabilidade devido à história linear

    Ficha Técnica:
    Jogadores: 1 a 4
    Idade: a partir de 8 anos
    Duração: 120 minutos
    Tipo: Caixa Básica
    Fabricante/Desenvolvedora: Plaid Hat Games/Galápagos Jogos (No Brasil)
    Idioma: Português
    Preço Médio: R$ 260,00

     

    Fillipe Vieira: Apenas um cara tentando encontrar seu caminho no emaranhado de ideias, sonhos e anseios que permeiam sua mente. Talvez um dia você se depare com algum jogo desenvolvido por ele. Quando esse dia chegar, é possível que esse cara tenha encontrado seu caminho. Interesses: séries de TV, cultura nerd em geral, vídeo games, ciência, história.

    4 COMENTÁRIOS

    1. Ótimo review! O jogo realmente é uma obra prima. Minha única ressalva é que a progressão em campanha é um pouco estranha. Não me entra na cabeça a ideia de que você pode jogar com vários ratos diferentes durante a campanha. Nem o fato de que vc vê os ratos aparecendo nas narrativas e durante a partida eles simplesmente somem, pq, por exemplo, não foram escolhidos por ninguém da mesa. Mas isso não tira a graça e a diversão do jogo, tanto que é um dos meus jogos favoritos!

    2. Opa, muito obrigado, Daniel! Você tocou em pontos interessantes. Realmente, o jogo dá essa liberdade de escolha aos jogadores, o que pode ser bacana se você interpretar como se você estivesse sendo parte de uma história, ajudando ela acontecer, mas não necessariamente sendo um personagem específico, quase como uma visão em terceira pessoa. Mas claro que isso quebra um pouco com aquela sensação de ser o herói da história e faz você ter mais uma mentalidade de grupo do que centrada em um único personagem. Admito que também me causa um pouco de estranheza principalmente a situação dos ratos quando aparecem na narrativa e não foram escolhidos para aquela partida. Ótima observação, abraço!

    3. Muito boa essa resenha — e o site, kudos pela trilha sonora! Fiquei interessado em comprar, já jogo RPG e achei a ideia muito bacana.

    4. Opa, obrigado, Johny! Espero que a resenha o tenho ajudado na decisão, você que é acostumado com RPG vai se sentir bem familiarizado com as mecânicas comuns a muitos jogos do estilo dungeon crawler. Mas ainda assim, o jogo traz diferenças suficientes para destacá-lo dos demais, eu diria que principalmente em relação ao “feeling” que passa. E o Lucas é o nosso Maestro consagrado dos board games, é só sucesso nessas trilhas! 🙂 Forte abraço!

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