ON PREVIEW: QUISSAMA: O IMPÉRIO DOS CAPOEIRAS

ON PREVIEW: QUISSAMA: O IMPÉRIO DOS CAPOEIRAS

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    02quissamaQuissama é um jogo ambientando no Rio de Janeiro, no ano de 1868, inspirado no livro homônimo de Maicon Teffen lançado ano passado. Segundo a própria página da campanha de financiamento no Catarse, “Quissama é um escravo foragido que conta com a ajuda do detetive inglês Woodruff para encontrar Bernardina, a mãe desaparecida. Ao mesmo tempo, precisa fugir do Alemão Mueller e sua malta, que quer capturá-lo”. O designer Ricardo Spinelli coloca-nos como co-autores desta história, tudo isso em meio a rivalidade de capoeiristas, o florescimento do comércio e as disputas pelo poder político. Apresenta ainda outros personagens do livro, alguns fictícios; outros, históricos, criando uma aura temática muito simpática. Saiba que a leitura do livro não é exigida, mas um exemplar dele pode ser adquirido em um dos níveis de apoio da campanha juntamente com o jogo.

    Mecânica:
    – Gerenciamento de mão
    – Influência em área
    – Poderes variáveis dos jogadores

    Antes de darmos uma olhada com calma nas engrenagens mecânicas de Quissama, vale destacar uma característica interessante. O critério de vitória em uma partida dependerá do personagem que você controla e, mesmo assim, esse personagem poderá ser bloqueado temporariamente ou até mesmo roubado. Isto quer dizer que antes do início do jogo não há condição pré-estabelecida de sucesso, você terá de brigar pela personalidade que mais lhe favoreça ou se adaptar conforme a mudança destas condições. Por si só, já é um fator curioso e positivo.

    0000002Um turno em Quissama é composto das seguintes etapas:

    Comprar cartas extras para cada um de seus trabalhadores no ministério
    Única maneira de adquirir cartas ao chegar a sua vez, no mais, você terá de lidar com o que tem na mão.

    Utilizar, opcionalmente, as habilidades únicas dos personagens que você influencia
    Por exemplo, se você controlar a Princesa Isabel poderá colocar um capoeira na praça descartando apenas a carta de capoeira, o que normalmente necessitaria desta carta mais uma carta de liberdade. Se você controla Araújo, contará uma moeda a mais para cada comércio cheio, facilitando suas jogadas na próxima etapa. Cada personagem possui uma habilidade e uma condição de vitória distinta.

    Jogar combinações de cartas e utilizar o mercado
    Chegamos aqui na parte fundamental de Quissama. Para conquistar seus objetivos (e você já sabe que eles podem variar conforme os personagens influenciados), você precisará descartar cartas com combinações certas de símbolos. No baralho de 94 cartas encontramos moedas, coroas, burgueses, liberdade, capoeiras (guaiamuns e nagoas), eventos únicos etc.

    Se você está focando em encher seus comércios, talvez por influenciar o nosso já amigo Araújo, você 000001precisará de comerciantes para abrir um novo negócio jogando cartas que contenham um símbolo de burguês e dois símbolos de moedas. Precisará depois contratar os capoeiras recém libertados, jogando uma carta de capoeira mais duas moedas. O investimento depois se paga, como já vimos, pois comércios cheios geram receita.

    Para colocar um ministro no Ministério, descarte um burguês, uma coroa e uma moeda, objetivo almejado por quem controla Dom Pedro II ou José de Alencar.

    Para povoar as praças com um novo capoeira saído da senzala (área imaginária que fica fora do tabuleiro contendo os capoeiras), descarte uma carta da malta respectiva, nagoa ou guaiamum, mais uma carta de liberdade e escolha em qual praça quer colocá-lo, respeitando sua malta. Guaiamuns têm uma faixa vermelha na cintura e ficam nas duas praças à esquerda do tabuleiro; nagoas usam uma faixa azul e podem ocupar uma das três praças à direita. É importante pensar bem nessa jogada e na colocação dos capoeiras nas praças certas, pois são elas que alimentam alguns comércios ou a área conhecida como Cabeça de Porco. Observe as estradinhas no tabuleiro que saem das praças para estes prédios.

    Você ainda pode atacar uma malta rival, descartando três capoeiras da malta contrária, para eliminar um futuro trabalhador do comércio do oponente ou ainda colocar capoeiras no Cabeça de Porco, o que acionaria a habilidade do personagem Alemão de roubar cartas adversárias, bem como sua condição de vitória.

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    Como criar um Ministro? Moeda, Burguês e Coroa

    Para as situações nas quais sua mão não está favorável existe o mercado com três cartas abertas que podem ser trocadas. No entanto, pode ser feita apenas uma troca por turno e tenha cuidado para não fornecer aquela carta almejada pelo oponente. Fique atento às personalidades que ele controla.

    E falando em personagens, outra opção desta fase da rodada é colocar marcadores sobre eles. É pago um custo normalmente do mesmo modo como foi feito para os outros trabalhadores. Quando um jogador tiver dois marcadores seus sobre uma carta de personalidade, ela virá para sua área de jogo para, finalmente, fornecer sua habilidade opcional e, mais importante, dar uma condição de vitória. Ter uma carta de personagem em sua área de jogo não é, entretanto, garantia de posse, pois os oponentes poderão colocar seus marcadores sobre ela e roubá-la. Além disso, cartas com peças inimigas não podem ser usadas, nem mesmo para a vitória. Livre-se dos marcadores alheios pagando o mesmo custo para colocar um marcador sobre ela.

    Descartar e comprar cartas
    Descarte as cartas que considere desnecessárias e complete sua mão para ter cinco cartas. Lembre-se que você não compra cartas quando chega sua vez, por isso o Ministério é importante. A vantagem de comprar cartas ao final é você ir planejando suas próximas ações sem atrasar o andamento da partida.

    Versão de testes
    Versão de testes

    Considerações Finais:
    Quissama é um jogo leve e com algumas soluções interessantes. Gostei particularmente das condições de vitória serem atreladas às influências das cartas, do papel dos capoeiras e o preenchimento dos comércios, da utilização das cartas para a colocação dos marcadores, tudo isso interagindo muito bem. Uma grata surpresa de um projeto que surgiu do nada.

    Some-se a isso, a arte com um visual simples, mas colorido e, diria até, inocente em um sentido nostálgico. Ter personagens e situações de uma história já criada fornece uma riqueza de ambientação não encontrada em muitos jogos consagrados, fora nossas figuras históricas!

    A partida flui bem. Em um primeiro momento você pode se sentir perdido por não saber qual o custo de cada coisa, tendo de consultar esta informação com frequência. Em poucas rodadas, entretanto, isso deixará de ser relevante. O que você perceberá é que serão raras as vezes que você conseguirá fazer tudo que deseja, sendo forçado a tomar decisões difíceis e que podem ficar inúteis ou obsoletas conforme as condições de vitória de seus personagens foram mudando, seja porque você influenciou uma nova personalidade e resolveu adotar outra estratégia, seja porque algum oponente bloqueou suas habilidades colocando um marcador inimigo ou, pior ainda, tenha roubado sua personalidade de você! E isso é extremamente divertido! Gosto muito de jogos que forçam escolhas complicadas a cada rodada e Quissama exigirá isso, ainda mais com a dose caprichada de interação entre os jogadores com os momentos “toma essa”.

    De negativo, percebi que algumas rodadas foram perdidas simplesmente por não haver boas opções de ação. Ou não possuía todas as cartas necessárias e as que estavam disponíveis no Mercado também não eram interessantes ou algumas cartas seriam melhor utilizadas esperando pelo complemento de uma compra futura para agir conforme meu plano de ação. A possibilidade de girar as cartas do Mercado, seja pagando algum custo (uma moeda?) ou através da habilidade de algum personagem (Woodruff, talvez, melhor ainda do que pagar algo) poderia agilizar isso.

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    Versão final do tabuleiro

    Outra, utilizar as habilidades dos personagens é muito divertido e faz a partida rodar bem, por que não aproveitar mais isso? Por exemplo, um controle de área simples sobre cada carta e que liberasse as habilidades para o jogador com a maioria dos marcadores daria muitas opções. Rodei uma partida aqui utilizando estas duas considerações e a cada rodada eu tinha minhas cartas, os bônus do tabuleiro, as habilidades temporárias dos personagens e a possibilidade de girar as cartas do Mercado! Uau! Muitas opções. A partida ganhou em dinamismo e chances de ação, eliminando as rodadas que foram simplesmente passadas. Usar os personagens é uma das marcas fortes do jogo, mas às vezes achava muito caro ter de colocar dois marcadores em detrimento de pôr alguma peça nova no tabuleiro para cumprir um objetivo. Se alguma habilidade estiver incomodando você, coloque um novo marcador nela, acabe com a supremacia inimiga e pronto! Obviamente, alguns mínimos ajustes teriam de ser feitos. Por exemplo, quem sabe se o jogador que controlasse temporariamente Quissama pudesse usar uma mão maior do que as cinco cartas?

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    Quanto ao vídeo disponível na campanha ele pode dar uma impressão errada em algumas coisas. O personagem Alemão é um pouco forte, sim, mas em algumas partidas ele simplesmente nem foi um fator. Pelo custo ou porque era mais interessante colocar os capoeiras no comércio em vez de no Cabeça de Porco. Mesmo assim, basta um marcador inimigo sobre ele para bloquear sua habilidade. Quanto a isso, outra coisa que gostaria era um setup inicial que não utilizasse todos os personagens. Por exemplo, o número de jogadores mais dois mais Bernardina (por fazer parte da condição de vitória de dois outros personagens), ou, para manter os personagens principais, coloque Quissama, Bernardina e uma carta a mais do que o número de jogadores. Isso ajudaria em partidas com apenas dois jogadores nas quais cada participante já sentasse à mesa com estratégia pronta. Claro que o baralho sempre é um fator de acaso no planejamento, mas não ter aquele personagem favorito disponível pode ser um interessante mecanismo de ajuste estratégico e daria frescor a cada sessão.

    Isto posto, Quissama é uma excelente proposta. Joga bem, é simples de ensinar, mas com muitas escolhas difíceis na partida e o tema é muito cativante. Um euro, porém, ao mesmo tempo, repleto de interação. Um título que conseguirá, sem dúvidas, ter espaço em sua coleção por ter um ar de inovação, fornecendo uma experiência de jogo distinta de outros jogos.

    Saiba mais sobre Quissama na página de seu financiamento coletivo, aqui.

    Assista à nossa partida completa com o designer Ricardo Spinelli:

    Pontos Positivos
    – Tema muito agradável, divertido e com personagens de nossa História
    – Uma mistura original de mecânicas
    – Fácil de ensinar
    – Bastante interação para este gênero de jogo

    Pontos Negativos
    – Faltam opções quando o mercado não oferece nada interessante
    – As habilidades dos personagens poderiam ser liberadas com mais facilidade para serem mais eficazes

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    3 COMENTÁRIOS

    1. Cara, que bacana ver um Board Game que se utiliza de elementos da “nossa” cultura (afro-brasileira) como tema! O jogo me pareceu ser divertido, embora um pouco travado quanto à montagem da mesa e tal. Gostei da escrita, da ideia do Board e do jogo em si 🙂

    2. Já garanti a minha cópia! Iniciativa que pegou todos os fãs de board games desprevenidos, no bom sentido! Foi uma grande surpresa saber que algo do tipo estava sendo desenvolvido em Blumenau. Gostei muito do tema escolhido, mecânicas implementadas e estou certo do sucesso dessa campanha!

    3. Gostei do tema também. Será que vai sair um sound board, com o uso do instrumento do berimbal? Vamos apoiar com certeza esse projeto. Sucesso garantido.

      Abraços.

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