ANALYSIS PARALYSIS: HIGHWAY TO HELL

ANALYSIS PARALYSIS: HIGHWAY TO HELL

    por -

    AP HIGHWAY

    Temos ouvido muita gente dizer que seu novo hobby são os jogos modernos de tabuleiro. Mas você já parou para se perguntar até onde seria capaz de ir com o seu novo hobby?

    A palavra ‘hobby’ é definida no dicionário como uma atividade de recreio ou descanso praticada nas horas de lazer. Então este é o primeiro ponto que podemos analisar. Se levarmos em conta a definição do dicionário, temos que ter em mente que só poderemos levar os jogos de tabuleiro à mesa quando estivermos nas horas de lazer, as quais geralmente estão ligadas ao nosso tempo livre. E nosso tempo livre, neste cotidiano caótico, sabemos que é bem escasso.

    Mas não é só isso. Ir à mesa para jogar é somente uma parte do hobby, pois poderíamos considerar que leituras, bate papos e pesquisas sobre o assunto também alimentam a sua satisfação. Neste caso, já poderíamos dizer que seu hobby vai além do seu tempo livre ou não? Acredito que a resposta de muitos seria ‘sim’.

    Certo, já sabemos que muitos entram ou entraram de cabeça no universo dos jogos de tabuleiro modernos, mas você seria capaz de ir mais adiante?

    Este seria o segundo, e não menos importante, ponto a se questionar. Se você já está inserindo seu hobby na sua rotina caótica e dedicando uma boa parte do seu dia com ele, talvez já esteja deixando-o influenciar nas decisões da sua vida! Veja o meu caso em específico, que neste momento parei o meu trabalho para escrever este artigo e, sinceramente, espero que minha chefe não leia isso!

    food
    É assim que você vê suas refeições? Ops!

    Meus pensamentos diários são parecidos com aquela primeira paixão que tivemos. Acordamos, comemos e dormimos pensando nela. Não é algo que está somente esperando você em sua casa, são pensamentos que impregnam a mente, perseguem até mesmo na hora de tirar água do joelho. Passar mais que uma hora sem qualquer tipo de contato com o hobby tornou-se uma missão impossível e já começo a considerar que isso pode estar sendo mais potente que as drogas. Aliás, ultimamente é assim que tenho me sentido, um verdadeiro drogado por jogos de tabuleiro, pois já comecei a pegar toda minha tralha geek, aquelas que estavam largadas, no fundo do guarda-roupas, tomando poeira na estante e comecei a vender tudo, no intuito de ter mais grana para investir ainda mais com os jogos. Sim, já vendi quase tudo e foi neste momento que vieram cenas de filmes à minha cabeça e você percebe que está agindo igual àqueles personagens drogados e descontrolados.

    Nesta fase, comecei a avaliar meu relacionamento amoroso e comecei a me preocupar se já não estaria muito afastado do meu compromisso. Isso é pior ainda, quando ela não consegue gostar do seu hobby, apesar do esforço. Mas como sempre fomos muito cúmplices um para com o outro, confio no nosso amor e sei que se isso realmente estiver a incomodando, ela vai dizer… hmmmm… assim espero! A crise pessoal aumentou quando meus amigos, parceiros de tudo quanto foi modinha na vida, começaram a me chamar de doente e louco, ressaltando que não tenho limites, quando enviava foto de algum novo jogo que comprava ou dos jogos que estavam sobre a mesa em uma noite de domingo. Estou começando a levar em consideração que isso pode ser verdade! Mas no fim, sempre penso: “E se eu for, qual o problema?” A crise então some e o hobby volta a me consumir.

    Outro vício que veio junto com os jogos de tabuleiro foram as plataformas de Financiamento Coletivo. Sabemos que muitos jogos estão sendo lançados por elas e participar da campanha de algum jogo promissor é o mesmo que querer viciar em um conta giro. Você trabalha dez minutos e abre o site da plataforma de financiamento na esperança de ver os números maiores. Trabalha mais dez minutos e abre de novo. Esta ação se estende por todo o dia e lhe persegue em casa, no restaurante, no banheiro, na hora de dormir… mas quando a campanha acaba, parece que a vida fica tão vazia. Acho que chego a ficar mais ansioso do que o próprio criador da campanha…

    Bem, aí chega aquele momento de responsabilidade, ou não, quando você começa a atrasar suas contas, seus compromissos financeiros, e seu orçamento anda totalmente instável e estourado. Por incrível que pareça, a gente mexe uma moedinha para cá, empurra uma moedinha para lá e no fim sempre conseguimos a grana para comprar aquele lançamento tão aguardado. Mas faltar leite em casa não tem problema nenhum, fico sem leite por vários dias.

    De repente surgem cem reais nas mãos, fruto de algum “freela”. É hora de fazer os cálculos para comprar aquelas coisas que estavam faltando na dispensa como o leite, achocolatado, suco, entre outros alimentos. Depois de meia hora de cálculos, entre somas e subtrações, finalmente você consegue chegar a uma lista satisfatória e anota-a em um pedacinho de papel, da seguinte forma:

    • Padaria:
    6 pãezinhos = R$ 4,00
    • Supermercado:
    1 pote de margarina = R$ 5,00
    • [Coloque o nome daquela empresa aqui]:
    Jogo de Tabuleiro = R$ 91,00

    pc3a3ozinho
    Nada de exagerar no pãozinho, certo?

    É muito gostoso curtir todo o universo dos boards games, buscando novas notícias, leituras, videos, mas ele lhe consome de uma forma assustadora, difícil de controlar. Dia desses estava pensando em uma estratégia bem complexa, porém ousada, de conseguir uma grana extra para novos lançamentos. De repente me deparei encarando meus cofrinhos personalizados do Spock e do The Walking Dead, abarrotados de moedas e bem pesadinhos, por sinal, os quais venho enchendo há meses para uma ocasião especial… só que não, obviamente eles não vão durar muito mais tempo cheios, na verdade só estou me decidindo qual deles vou abrir primeiro.

    Monopoly-Banker-with-Empty-Pockets
    Até o tio do Monopoly tá liso

    O engraçado de tudo isso é que você nem tem tanta preocupação assim em jogar todos os títulos que compra. A intensidade desse vício dos infernos é tão forte que já estou pensando em vender alguns jogos que ainda nem joguei da minha estante para comprar os que estão sendo lançados! Aí eu pergunto, meu vício são os jogos de tabuleiro mesmo? Ou o consumismo? Ou o vício pelo hype? A única coisa que posso afirmar é que estou começando a achar que realmente estou doente. Bom, mas e daí, qual o problema, não é?

    Enfim, se você está deixando este hobby lhe dominar completamente, saiba que é o sinal de que você está a caminho do inferno. E tenho certeza que, assim como eu, você está gostando muito!!!

    Jogos de tabuleiro foram criados para diversão e estes devem ser utilizados em horas de lazer. É praticamente isso que define um hobby. Se eles não forem somente sua fonte de renda neste momento, muito provavelmente você pode estar realmente no mesmo caminho que o meu. Eu poderia afirmar que este não é o seu hobby caro amigo leitor, ele é a sua fonte de vida, sua razão de viver, seu Inferno pessoal!

    E então, você também já pegou a sua estrada para o Inferno?

    NOTA: As opiniões dos autores da seção Analysis Paralysis são pessoais e não refletem, necessariamente, a opinião dos demais colaboradores do site.

    Renato Morroni (Hellnatus) "Renascido do Inferno": Desde criança, uma de suas características principais era a mania do colecionismo. De figurinhas de chicletes até adesivos de cadernos escolares, sempre considerou essa prática como sua criptonita. Com o passar dos anos, suas coleções e interesses foram mudando e ganhando proporções financeiras, mas o que realmente o manteve conectado no universo geek foram os jogos digitais, os quais sempre foi apaixonado e fissurado... até descobrir os boardgames. Agora, procura associar sua profissão de Designer Gráfico com os boardgames, já que não consegue controlar seu novo e apaixonante vício. Outros interesses: jogos digitais, filmes e séries de TV aos montes, action figures, zumbis.

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    4 COMENTÁRIOS

    1. Ótimo texto! Acho que a melhor coisa que pode existir é você ter um hobbie e vganhar dinheiro com ele. Tipo cinéfilo que vira cineasta ou um game maníaco que vira designer de jogos.

    2. muito bom o texto.
      não é minha fonte de renda, nem vai ser (ao menos não em um futuro proximo), mas ainda é uma diversão.
      tive uma experiencia que gostaria de compartilhar.
      estava a alguns dias tão imersivo no mundo boardgames que nem noticias sobre o cotidiano eu sabia mais, então parei de ler coisas sobre boardgames e fui me interar dos atuais do cotidiano e ei que vejo.
      polico x rouba milhoes, policial x mata 10, querem depor a presidente x, mais um escandalo y com muitos ploticos envolvidos, o time x ganhou do time y, jogador de futebol ganha milhoes e sai com modelos travestis…. e mais um monte de coisas que sempre vemos da mesma maneira e por muito tempo ainda veremos, na hora pensei… deixa eu voltar para o mundo de boardgames pelo menos aqui estava menos perigoso, afinal ninquem aqui morre de verdade numa partida….

    3. Excelente ponto, Wesley. Pode ser vergonhoso, mas fiz a opção há alguns anos de me alienar das notícias daqui, porque elas realmente me faziam mal! Hoje vivo feliz dentro da Matrix!

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