ANALYSIS PARALYSIS: LIBEREM (TODOS) OS DEMÔNIOS

ANALYSIS PARALYSIS: LIBEREM (TODOS) OS DEMÔNIOS

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    Quando recebi meus exemplares de BattleLore Second Edition e Battle Cry 150th Civil War Anniversary Edition e ambos se juntaram a minha caixa de Memoir 44, ocorreu-me um pensamento. Antes de exteriorizar o que se passou em minha mente, vale comentar que estes três jogos são do designer Richard Borg e compartilham um mesmo conjunto mecânico básico, o sistema Commands & Colors, mas com grau de detalhamento temático e complexidade distinto. O que interessa aqui é saber que BattleLore é ambientado no universo ficcional de Runebound, no mundo de Terrinoth, o mesmo de Descent, Rune Age e Runewars, Battle Cry encena batalhas da Guerra Civil Americana (1861-1865) e Memoir 44 situa-se na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Os três jogos possuem claramente mocinhos e bandidos. O que me instigou foi como tratamos os malvados.

    Para quem não acompanhou nos últimos dias, várias empresas nos Estados Unidos retiraram de suas ofertas de venda, produtos que contivessem a bandeira confederada. A Confederação foi uma união de estados americanos que defendiam a manutenção do trabalho escravo, rebelando-se contra o governo de Abraham Lincoln, defensor da secessão. Constituído boa parte por estados sulistas, os confederados tinham menos soldados, menos recursos, menos ferrovias, uma causa indefensável, mas superioridade de comando, o que acarretou em um conflito sangrento que provocou o maior número de baixas americanas na história, mesmo se somarmos todos as guerras das quais os Estados Unidos participaram até hoje! Cerca de setecentas mil mortes.

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    Exército e bandeira confederada

    Na onda anti-confederados (e quem em sã consciência seria, ainda mais 150 anos depois?), a Apple retirou de sua gigante loja virtual, a Apple Store, os aplicativos, incluindo jogos, que apresentassem a bandeira confederada. Vários designers ficaram revoltados quando, de súbito, seus trabalhos não estavam mais disponíveis na maior vitrine digital do planeta. Jogos como Ultimate General: Gettysburg foram varridos. Grandes lojistas como o Walmart e a Amazon entraram nessa também e até o Battle Cry que está agora em uma de minhas prateleiras não é mais encontrado tão facilmente, um dos motivos que me fez com que apressasse sua aquisição.

    A Confederação foi uma vergonha e é uma vergonha até hoje! Uma mancha irremovível na história de um país que prega ser o berço e o baluarte da liberdade, ainda mais por ter sido tão recente. Uma guerra motivada pela discriminação nos mesmos moldes de Hitler, com a diferença de que o tirano austríaco odiava tudo que não fosse ele, enquanto os fazendeiros milionários e madames do sul odiavam “apenas” os negros, aqueles permitiam que seu status quo fosse mantido. Afinal, escravizar é odiar!

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    Um dos cenários de Battle Cry

    Entendo toda a dor que o assunto gera, eu mesmo estando longe no tempo e no espaço, graças a minha formação humanística, consciência e compreensão do que é ser humano, fico incomodado com estes acontecimentos. Gostaria, contudo, de entender como varrer as lembranças da época pode ser útil. Pior: pode ser perigoso. Todos os defensores destes movimentos que chamamos erroneamente de politicamente corretos só tem um argumento, qual seja, a dor da lembrança, o sofrimento dos descendentes e familiares. Aí temos dois problemas, os que não sofrem com isso, ou porque cicatrizaram a ferida dos antepassados ou nem sabem o que aconteceu (e você ficaria espantado com a quantidade de pessoas em qualquer país que desconhece fatos fundamentais de sua história, principalmente nos Estados Unidos) não estão nem aí para o bloqueio da bandeira. Os que se incomodam, seja pela dor ou pela vergonha, irão realmente, digo, REALMENTE, sentir-se melhores? Como será ensinada a história doravante? Omitindo fatos e símbolos que doam? E neste tópico podemos incluir a substituição dos escravos por colonos em Puerto Rico e por faquires em Five Tribes. (Leia aqui o que o próprio designer Bruno Cathala tem a dizer sobre isso em nossa entrevista com ele). Outra, acreditar que cada soldado raso confederado ou nazista sabia por quais absurdos motivos estava lutando é ser muito inocente. O mal desses episódios é tão abominável que fez vítimas até em seu próprio lado!

    Entendo que a caçada foi aos jogos, pela questão interativa, creio, afinal você está defendendo aquele lado. E confesso que quando devo assumir as tropas alemães em Memoir 44 tenho de esquecer todo o horror promovido e pensar que é apenas um jogo. E sempre aproveito para relembrar tudo que vi e li sobre a Segunda Guerra, tudo que defendo e acredito, tudo que precisamos ter e fazer para ter um planeta habitado por pessoas que respeitem as diferenças. Mas não seriam os jogos, justamente, uma das portas de entrada mais atraentes para as novas gerações conhecerem a História?

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    Um dos cenários de Memoir 44. NEVER FORGET!!!

    Tenho certeza absoluta que o mesmo ocorrerá com o nazismo um dia. Em cem anos nossos jovens mal saberão quem foi Hitler e quem estuda História sabe qual é o maior perigo do esquecimento: a repetição. Queria saber como funcionaria a relação direta do banimento de algum símbolo e a efetiva erradicação de sua ideologia correspondente e se não foi justamente a discussão e a evolução do pensamento coletivo sobre nossos erros e vergonhas, enquanto humanidade, que nos tornou cada vez melhores?

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    Esse pode!

    Vamos falar agora dos demônios de Terrinoth, os Uthuk. Estes existem para trucidar, matar, esquartejar e devorar seus inimigos, os diferentes. Afinal, são demônios, diabos! Lutam pela sua supremacia a qualquer custo, um instinto animal que desafia as normas e o bom senso de nosso mundo “civilizado”. Dentre nazistas e confederados, os Uthuk não correm o risco de serem esquecidos, primeiro porque não são humanos, ou seja, seus atos truculentos não ofendem nossa espécie. Segundo, mesmo que fossem uma tribo, clã ou nação formada por seres humanos, por serem de um mundo de fantasia, não conhecemos os relatos das viúvas de suas vítimas e não sentimos o cheiro dos cadáveres que deixaram pelas ruas. Todo o grau de barbárie e violência no mundo imaginário dificilmente seria alvo da faxina semelhante a da histórica.

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    Um dos cenários de BattleLore

    Não sei o que é ser politicamente correto, desconfio o que é ser humanamente correto, após tantos anos tentando ser justo e honesto e tendo estudado boa parte de nossa História, Filosofia, Artes, Sociologia dentre outras. Percebo, também, em minha atividade de professor, que as gerações que atendo têm cada vez menos percepção histórica, geográfica e social. São aconselhadas pelos pais a não brincar de polícia e ladrão, pois estimula a violência e estigmatiza algumas crianças, ao mesmo tempo em que vivemos na época de maior violência urbana. Ao tentar esconder e proteger nossos infantes dos males do mundo, não os estamos preparando para as dificuldades.

    Os filhos dos filhos dos que não chegaram a saber o que a bandeira confederada ou a suástica representaram não estarão isentos de uma sociedade sem racismo e sem ódio, isso, infelizmente, está impregnado nos homens. Estarão apenas recebendo parte da informação. Seja um símbolo, uma cor, um hino, uma batalha, eles aconteceram e devem ser conhecidos, não para celebrar, óbvio, só um idiota entenderia estas linhas erroneamente, mas para lembrar do que podemos fazer ou nos tornar.

    Já os demônios Uthuk, justamente os inofensivos, é que não correm o risco de serem apagados!

    NOTA: As opiniões dos autores da seção Analysis Paralysis são pessoais e não refletem, necessariamente, a opinião dos demais colaboradores do site.

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

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    3 COMENTÁRIOS

    1. Congresso americano aprovou uma lei recentemente que bani a bandeira confederada.

      Basicamente agora possuir uma bandeira confederada é crime nos EUA.

      E os desenvolvedores e revendedores de jogos temem que a representação que é feita no jogo seja interpretada pela justiça como crime.

      A lei é exagerada? Talvez.

      Mas tem que lembrar o que motivou ela: nos Estados Unidos atualmente ressurgiu uma onda confederada. De gente pregando ódio contra negros e coisas piores, e vários desses grupos usam como símbolo a bandeira confederada.

      Então existiam, por exemplo, bares que penduravam essa bandeira na entrada pra dizer: negros não são bem-vindos aqui.

      Enfim. Assim como o neo-nazismo. Um bando de gente execrável que merece ser banida da sociedade.

      O Estado precisou agir. E uma das maneiras foi conseguir aprovar essa lei.

      Existe toda uma discussão de que fazer isso é só tapar o sol com a peneira.

      Mas o lance é o contrário do que você falou: não é esquecer o que rolou, mas não deixar que pessoas revivam isso.

    2. Muito boa abordagem Lucas, esse assunto por vezes me passou em pensamento em diferentes momentos, inclusive houve uma vez uma discussão na Ilha do Tabuleiro, onde a questão era na criação de um jogo, com foco na história do Brasil e como deveria ser tratada a presença de peças que representam os escravos. Bem, sitou-se o Puerto Rico que trata por colonos, que em partes ( pequena) não deixa de ser verdade, mas a grande maioria da época eram escravos. Na mesma direção sulistas, nazistas, bolcheviques, comunistas atualmente jihadistas, são parte da história e a meu ver, ocultar isso é pior que mostrar. É preciso que as pessoas conheçam a verdade, para evitar comprar ideias perigosas, extremistas, a radicalização. Hoje vivemos isso de forma acentuada, no Brasil mesmo vivemos a ameaça da esquerda radical, e ninguém se preocupa em saber o que de fato o comunismo representou no século XX, de bom com certeza nada. Infelizmente sempre haverá pessoas que seguem o que há de pior, mas seguir por ignorância é um coisa, este será o idiota útil de Lenin, mas seguir e saber que aquilo representa uma ameça, saber que por exemplo ideologias políticas como o nazismo e comunismo, foram desgraças para a humanidade, responsáveis por genocídios, guerras no minimo nos diz que essa pessoa é perigosa, mas ainda é preferível ver de onde parte um ataque do que não saber. Então os jogos por sua vez, quando com foco na história, deveriam ser fiéis, deveria no entanto deixar muito claro o que de fato aquilo representa, a escravidão, as ideologias políticas ou até religiosas. O conhecimento é uma grande arma contra toda essa radicalização, então quanto melhor informado, menor o risco de dar espaço para estas modalidades de desumanidade. Nunca devemos esquecer da nosso história, porque de fato, estaremos condenados a repeti-la. Esperam que entendam meu ponto de vista.
      abraço!

    3. Caro, Lukita

      Gosto muito de seus posts e vídeos.

      Iniciei recentemente o hobby com board games em razão disso.

      Pode colocar aí nas suas estatísticas de sucesso!

      Esse post em particular abriu meu apetite para conhecer jogos com a mecânica "Commands & Colors" que você citou.

      Tenho procurado muito, talvez não da melhor forma, algum jogo com uma mecânica capaz de simular com eficácia o fog of war de jogos RTS de computador (command & conquer, warcraft, age of empires etc),

      Eis que ao pesquisar o termo Command & Colors, encontrei as regras do "Commands & Colors: Ancients" e lá vi escrito "The Command card system drives movement, creates ‘fog of war’, and presents players with many interesting challenges and opportunities".

      Poderia me indicar algum board game para iniciante que dá show nessa mêcanica de fog of war? Seria o BattleLore mesmo?

      Abraço

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