SOBRE A MESA: EUPHORIA

SOBRE A MESA: EUPHORIA

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    euphoriaDistopia… a constatação de que nosso projeto enquanto seres humanos falhou. Não que tenha dado certo com muita frequência, afinal, ao longo da história, passamos por situações complicadas, mas a expressão futuro distópico parece ter um caráter inevitável e imutável, quase como um paradigma que será aceito automaticamente ou, pior ainda, não perceptível. De Brave New World de 1932, passando por Blade Runner, 1984, V de Vingança, Matrix, BioShock, Deux Ex, inúmeros são os exemplos na literatura, no cinema e nos jogos eletrônicos, para citar as mídias mais populares.

    No mundo dos jogos de tabuleiro, temos alguns grandes nomes como Android: Netrunner, Imperial 2030 e, por que não, Battlestar Galactica, mas nenhum deles captou o clima distópico clássico do escritor inglês Aldous Huxley, autor do já citado Brave New World ou Admirável Mundo Novo no Brasil, clássico publicado nos anos 30 e assustadoramente atual nos dias de hoje como o jogo Euphoria: Build a Better Dystopia de Jamey Stegmaier. A distopia aqui é a moral e tecnológica, daquela que filtra o que cada um faz, pensa, come, veste, tudo em nome de uma falsa alegria, de uma ação de grupo centrada na ignorância em detrimento do indivíduo na busca do bem estar da elite dominante.

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    Foto On Board

    O pano de fundo aqui é que o mundo como o conhecemos acabou e para evitar mais um ocaso, a elite Euphoriana criou uma Nova Ordem cercada pelos altos muros dourados da cidade de Euphoria. O passado não mais interessa. Doravante, apenas o futuro!

    Mecânicas:
    – Rolagem de dados
    – Alocação de trabalhadores
    – Poderes variáveis dos jogadores
    – Coleção de componentes
    – Gerenciamento de mão

    Euphoria é um dice placement, isto é, uma variação da tradicional mecânica de alocação de trabalhadores, na qual dados assumem a função de meeples ou marcadores. Neste tipo de mecânica, os resultados dos dados geralmente são pré-requisitos para realizar determinada ação. O designer Jamey Stegmaier, entretanto, dá um sabor extremamente temático a eles. Os números representam o conhecimento dos operários, seu nível de consciência de que estão em uma realidade forjada e isso não é bom para nós. Queremos funcionários estúpidos e felizes, pois em Euphoria somos gerentes de baixo nível tentando ganhar controle da distopia. Operários inteligentes ou com alta percepção coletiva fugirão e, muitas vezes, precisaremos de tratamento de choque e jatos de água fria para mantê-los motivados e idiotas! O objetivo é espalhar nossa autoridade, os marcadores de estrela. Quando algum jogador atingir dez estrelas, encerra-se a partida.

    Não há como explicar o jogo sem detalhar um pouco do que o tabuleiro representa, aliás, já fica esta dica quando for ensiná-lo para seu grupo. A elite, na figura dos Euphorianos, fica na parte central esquerda, com seus muros dourados, cuidando da geração de energia.

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    Do lado direito, temos os Wastelanders, provas vivas do apocalipse que ocorreu no passado, são historiadores e fazendeiros, responsáveis pela produção de comida. No subsolo, encontramos Subterra com seus mineradores e mecânicos, detentores da tecnologia para a obtenção de água.

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    Literalmente, acima de todos, em dirigíveis, alheios a tudo que acontece no solo, consumindo um tipo especial de droga em um estado de torpor constante, encontramos os Icarianos. Saber utilizar as áreas destas quatro facções nos momentos certos é fundamental para o sucesso e, vale citar, que você não joga como uma delas, você é o gerente e trabalha com todas. Entretanto, recrutas destas facções poderão auxiliá-lo.

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    Vale a pena dar uma olhada no tabuleiro sem os espaços de ação
    E aqui em toda sua glória

    No começo da partida cada jogador recebe quatro cartas de recrutas, seleciona duas, revela uma e deixa a outra em segredo até o momento certo. Esta carta revelada dará bônus ou habilidades especiais como por exemplo a carta aí abaixo.

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    Sarinee, uma Icariana, é uma das 48 cartas de recrutas disponíveis. Se ela for sua ajudante, perceba que você teria uma vantagem exclusiva ao ir primeiro à Mina de Nuvens, seja para perder Conhecimento ou ganhar um êxtase extra, mais uma das mercadorias do jogo.

    Você começa a partida com dois dados, ou seja, dois operários. Em seu turno, você pode, basicamente, fazer uma das seguintes ações: colocar um de seus dados em um dos espaços do tabuleiro ou retirar alguns ou até mesmo todos os dados já alocados. Colocar um operário funciona do jeito tradicional das alocações de trabalhadores. Escolha um local, pague o custo, receba algo. Alguns locais, contudo, fornecem mais ou menos coisas dependendo do nível de conhecimento coletivo dos operários. Por exemplo, se você colocar um primeiro operário no Gerador. Imaginemos que ele tem conhecimento quatro, ou seja, seu dado está com a face quatro para cima. Sendo o primeiro no Gerador, na primeira coluna com os bônus temos que de 1-4 de Conhecimento este operário ganha uma energia e a facção dos Euphorianos avança seu nível de lealdade em um, falarei mais sobre isso depois. O interessante é que se um segundo operário, e não interessa de quem seja, for colocado no Gerador (imagine um espertalhão com conhecimento cinco), os dois reunidos somam nove, imagine que os dois trocam ideias e ter ideias não é bom para uma distopia.

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    Dois operários no Gerador, totalizando 9 de Conhecimento. Ganhe duas energias e um de Conhecimento. Foto On Board

    Com este grau de percepção, este segundo jogador receberia dois marcadores de energia, o que é bom, claro, e realista, operários inteligentes produzem mais. A parte ruim é que neste nível ele também ganharia conhecimento, representado pela cabeça em perfil com engrenagens. Conhecimento, você já sabe, é ruim e ele será fundamental na hora da retirada de seus trabalhadores. Além das mercadorias comuns que você pode obter, água, comida, energia e êxtase, outros espaços permitem conseguir recursos como ouro, argila e pedra. Estes recursos são necessários para a construção de novas estruturas, uma das várias maneiras de espalhar autoridade. Existem, ainda, túneis, através dos quais uma facção tenta acessar o território de outra e, com isso, conseguir as mercadorias próprias desta última. Bom, menos os Icarianos. Nos céus não há preocupação com isso!

    tabelaChegará o momento no qual você não terá operários disponíveis e retirá-los será uma necessidade. “Vamos tirar todos de uma vez”, você poderia pensar. Calma lá. A qualquer momento em que operários são retirados, eles devem ser rolados imediatamente e seus conhecimentos são somados com o nível de conhecimento que pode ser vista ao lado. Cada jogador tem um marcador de conhecimento neste espaço, imagine que ele esteja no nível +5 e você retire três operários, rolando 1, 4 e 6. Somando 1 + 4 + 6 (dos dados) + 5 (de seu marcador na Tabela de Conhecimento), temos 16! Com 16 ou mais, o nível de consciência de seus funcionários fica muito alto e um deles, o mais inteligente (o número 6), simplesmente lhe abandona! No começa da partida você pode achar que isso não será um problema, acredite, será! Até porque em vários espaços de alocação qualquer jogador pode retirar um dado seu para utilizar aquele espaço, o que, por um lado, é bom, já que você retira um operário sem gastar ação, mas como ele deve ser rolado imediatamente, espere que seus oponentes estejam de olho em seu conhecimento total para fazer com que você perca alguém!

    Você utiliza estes locais para ganhar as mercadorias, para depois conseguir recursos para, por exemplo, auxiliar na construção de novas estruturas em nossa distopia. Participar deste processo é importante, pois quem auxilia na construção coloca mais um marcador de autoridade em jogo e precisamos de dez, lembram-se? Além disso, quem não participa da construção receberá uma punição que poderá complicar bastante sua vida. Das dezoito estruturas existentes, apenas seis são colocadas em jogo aleatoriamente. Só aí temos mais de treze milhões de possibilidades. Junte isso aos recrutas que citei antes e que boa parte não vê a luz do jogo e teremos muitas e muitas partidas com poderes e habilidades diferentes.

    academiaVoltemos às estruturas. Além dos nomes extremamente temáticos e intrigantes, como, por exemplo, o Refeitório de Carnes Inominadas, o Registro de Segredos Pessoais ou a Academia de Igualdade Obrigatória, suas penalidades para quem não participa da construção também são diferentes. Vejamos a Academia que citei, quem não participar de sua construção não poderá utilizar as habilidades especiais de seus recrutas, como a nossa amiga Sarinee acima! Mas calma, você poderá marcar sua autoridade posteriormente, apenas sairá mais caro, em vez dos recursos usuais, argila, ouro e pedra, custará três artefatos. Com novas estruturas construídas, existirão mais espaços de alocação, ou seja, mais possibilidades.

    Mas calma aí! Eu falei artefatos? Mais um elemento? Isso mesmo. Os artefatos são cartas representando nossa história, coisas que são encontradas no subsolo de Euphoria ou ainda no Mar de Brisas dos Icarianos. Livros, brinquedos, bastão de baseball, até mesmo board games, em particular, Viticulture (aqui o designer faz uma piada com ele mesmo, existe outra que não revelarei). Estes souvinirs de nossa história são um modo de colocarmos mais autoridade em jogo.

    Há ainda nossos recrutas secretos, negociação para a troca de recursos, mercadorias ou artefatos, dilemas éticos, marcadores de lealdade das facções… Uau! Muita coisa acontece em Euphoria, não pretendo cansá-los com todas as minúcias, creio que uma boa parte do que ocorre já foi dita. Mas não esqueça, seu turno é basicamente colocar um dado ou retirá-los do tabuleiro, mas com muitas possibilidades e implicações.

    Considerações Finais
    Pouquíssimos jogos, para mim, tocam em algum ponto que mexe comigo. Cenários distópicos é um destes pontos. O que me fascina (assusta?) em uma distopia é que dificilmente saberemos quando estivermos vivendo em uma. E este tipo tradicional que envolve alienação de massa, além de ser tenebrosamente real e atual, ainda coincide com muito de minhas leituras acadêmicas e pessoais.

    O que Jamey Stegmaier fez neste jogo foi tratar o tema de maneira muito correta, utilizando as referências tradicionais e sendo, ao mesmo tempo, criativo, oferecendo um eurogame com muita interação e com grande apelo temático, aliás, tendência atual de muitos euros. Euphoria é um destes exemplos que desafiam os limites de muitas características dos euros. A arte, as nomenclaturas, tudo ajuda na construção deste mundo. Não vamos esquecer, entretanto, que ele é um euro, sim, e existe muita abstração também. O autor já fez boa parte do esforço temático, entrar e imaginar o universo, também faz parte da mesa de jogo.

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    Foto On Board

    Mecanicamente, e isso não é novidade, amo dice placement. Primeiro porque adoro worker placement e a aleatoriedade com nossos trabalhadores sendo dados dá um sabor muito especial. Não basta planejar as ações com antecedência, pois os dados forçarão ajustes estratégicos a cada rodada. Aqui os dados são usados de maneira mais diferente ainda. Não pelo número que precisa ser utilizado neste ou naquele local como em Kingsburg ou Alien Frontiers, para citar dois exemplares fundamentais do gênero, mas pelo nível de inteligência que precisa sempre ser monitorado. Uma visão nova (conhecimento) sobre uma mecânica modificada (dice placement) de uma mecânica tradicional (worker placement).

    Um jogo de extrema simplicidade de ações, colocar ou retirar trabalhadores, mas com tanta coisa acontecendo, tantos lugares, tantos recrutas e estruturas diferentes, com negociação e muita interação, comportando ainda seis jogadores, capacidade incomum para este tipo de jogo, com turnos rápidos e ambientação única e que conta uma história.

    Quanto aos recrutas, você ouvirá que um ou outro é mais poderoso. Concordo, mas assim como Agricola, boa parte do sabor das partidas vem disso. Muitos recrutas ficam foram do jogo e as negociações pela troca de itens, se bem utilizadas, podem gerar situações muito interessantes, como alguém quase que monopolizando alguma mercadoria e negociando por outros recursos. Não se preocupe, isso poderá acontecer em uma ou outra partida apenas e trará um desafio novo aos demais.

    Um de meus dez jogos favoritos, pelo tema, pela nova visão mecânica, pela interação dentro e fora do tabuleiro e pela integração harmoniosa disso tudo. Deve figurar, orgulhosamente, na lista de obras que citei no começo deste artigo.

    Pontos positivos:
    – Existe um mundo rico nascido de um conjunto pequeno de informações
    – Artes e nomenclaturas apoiando o tema
    – Dados e números são operários e conhecimento
    – Interação e negociação
    – Comporta seis jogadores
    – Belos componentes
    – Rejogabilidade aumentada pela variação dos recrutas e estruturas

    Pontos negativos:
    – Alguns recrutas são mais “úteis” que outros
    – Pode travar os novatos pela quantidade de informações

    Ficha Técnica:
    Jogadores: 2 a 6
    Idade: a partir de 13 anos
    Duração: 90 minutos
    Tipo: caixa básica
    Fabricante/Desenvolvedora: Stonemaier Games
    Idioma: Inglês
    Preço Médio: R$ 350,00

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    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    3 COMENTÁRIOS

    1. Muito obrigado, Aline! O tema desse jogo é DEMAIS!

    2. Excelente review, Lukita! Nos deixou ansiosos para jogar!!
      E quando vai sair no Brasil? Qual empresa vai lançá-lo por aqui? (Essa carta em português quer dizer o que?… Hehehe)
      Abraço e continue com o excelente trabalho!

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