SOBRE A MESA: CV

SOBRE A MESA: CV

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    CV BOXMinha vida nunca teve nada demais até o começo da fase adulta. Tirando minha afinidade com a galera do Clube de Ciências, tudo parece uma nuvem até concluir o Mestrado. A pós-graduação foi minha maior conquista, no entanto, enquanto eu estudava, creio que meus colegas de curso tomaram todas as boas vagas de emprego. O jeito foi trabalhar na empresa do meu velho. Até ganhava bem, mas sabe aquela sensação de que você pode mais? E essa sensação foi virando infelicidade. A Srta. Nosebump era gerente lá e sempre me incentivou a tentar passos mais largos. Assim, arrisquei tudo e encarei uns trabalhos de “freela” como vocês chama hoje. Às vezes a grana entrava, às vezes não. Mas fui juntando dinheiro aos poucos, conheci muita gente e, mais importante, sentia-me feliz. O próximo passo pareceu-me natural: montar o próprio negócio. Rapaz, você quer ser dono do próprio nariz e fica mais escravo do que nunca e isso estava consumindo minha saúde. Troquei o carro pela bicicleta, comprei uma casa nas montanhas. Bom, não contarei minha vida toda aqui, certo? Ainda nem cheguei na terceira idade e não quero tomar seu tempo.

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    Foto On Board

    Para quem não percebeu, esta não é a minha vida, mas foi a vida que tive em uma das partidas de CV (Curriculum Vitae), um delicioso e divertido dice game que tem a proposta de montar sua vida, desde as memórias de infância até a terceira idade. Ao longo da partida você precisará fazer escolhas de quais caminhos seguir, o que tem mais importância em dado momento e conforme sua dedicação a esta ou aquela atividade você colherá os frutos ou sofrerá com as dificuldades. Como na vida real, nem tudo é alcançável, muitas vezes você estará tão perto daquele objetivo, tão perto, tão perto… E ele escapará! Sabe como é a vida!

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    Mecânica:
    – Seleção de cartas
    – Rolagem de dados
    – Gerenciamento de mão
    – Pressione sua sorte
    – Coleção de componentes

    Existem vários tipos de cartas em CV. Para efeitos didáticos, permita-me fazer algumas divisões. Cartas de infância são lembranças que ficam em sua mão antes do início da partida e poderão ser usadas como eventos únicos posteriormente. Faltou grana para comprar aquele carro usado? Quebre o porquinho de moedas que você guarda há tanto tempo. Outro tipo de cartas, são as de objetivo. Algumas ficam abertas no tabuleiro e servem para todos os jogadores. Gosto de pensar que refletem os valores da época e da sociedade do momento. Além disso, cada jogador tem um objetivo de vida secreto, só seu. Trabalhar duro, saber de tudo um pouco, colecionar coisas são alguns deles.

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    E, finalmente, temos os baralhos do começo da vida adulta, da meia idade e da terceira idade. São destes decks que compramos as cartas que definirão os acontecimentos nas vidas dos jogadores. Nestes três baralhos, encontramos vários tipos de cartas que correspondem a aspectos distintos. Temos cartas de relacionamentos (lilás), posses (amarelo), conhecimento (verde), saúde (laranja), emprego (azul) e eventos (cinza). Estas últimas são utilizadas apenas uma vez, descartadas após isso e não fazem parte do currículo do jogador.

    Que rolem os dados! Em seu turno, o jogador rolará quatro dados, podendo escolher alguns resultados, voltando a jogá-los até duas vezes mais. Nas faces dos dados encontramos símbolos de conhecimento, saúde, relacionamento, dinheiro, boa sorte e má sorte. A má sorte, quando aparece, fica travada e este dado não poderá ser rolado novamente.

    Conforme seu objetivo secreto, os objetivos abertos ou suas possibilidades, você comprará até duas cartas das cinco disponíveis na fileira inferior do tabuleiro, pagando o custo representando pelos símbolos na parte superior da carta. Quer seguir a carreira de atleta? Para comprar esta carta você precisará de três símbolos de saúde. Quer ter um filho? Precisará de relacionamento e dinheiro. E assim estas cartas vão formando colunas arrumadas conforme cada cor, ou seja, cada faceta de sua vida. O que passa a fazer parte de seu currículo ajudará a conquistar mais coisas, através dos símbolos bônus na parte inferior.

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    Para ser blogueira, precisa estar com a saúde em dia, viu?

    Por exemplo, se você assumir o emprego de atleta profissional que falei acima, esta carta gerará um símbolo extra de saúde e um de dinheiro, fora o que você conseguir nos dados.

    Assim, você vai planejando o melhor caminho para atingir seus objetivos. Lembram que troquei o carro pela bicicleta? Esta carta exige dois símbolos de saúde e um de dinheiro. Se já fosse um atleta, gerando um de saúde e um de dinheiro automaticamente, precisaria de apenas mais um símbolo de saúde nos dados.

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    Aposentou-se cedo? Inveja!

    Com exceção das cartas de posses e empregos, cada vez que você compra uma carta nova, você poderá reajustar a coluna respectiva, deixando esta nova carta ou alguma das já presentes no topo. Isso, tematicamente, reflete que aquilo passa a ser sua prioridade naquele quesito, ou seja, você pode repensar sua vida, reajustar seu currículo e, mecanicamente, determinará qual bônus ficará ativo, já que as demais cartas ficam cobertas, apenas uma carta de cada tipo é válida.

    As cartas compradas são substituídas, primeiro pelas cartas do começo da vida adulta, depois pela meia idade e finalmente, pela terceira idade. Quando houver menos cartas neste último baralho do que o número de jogadores, encerra-se a partida.

    Considerações Finais
    Particular e absolutamente, eu AMO o tema de CV. Não há proposta similar no mercado de jogos de tabuleiro e não, Jogo da Vida não é um exemplo. Em que momento no Jogo da Vida eu decidi comprar um bode ou exibir orquídeas em algum torneio para sequer dar a chance do bichano comer minha plantinha vencedora?

    Em CV, nós escolhemos, planejamos, adaptamos e gerenciamos nossa vida. Por ser um jogo com dados, haverá momentos em que você não irá conquistar tudo que você quer. Quer algo mais similar à vida que isso? Até o fracasso ou a má sorte pode ser entendida como parte da construção de nosso alter ego.

    O grande barato é ir contando e montando sua história conforme as cartas vão integrando seu currículo. Lembram-se de meu Mestrado no começo da matéria? Claro que eu fiz faculdade, mas o que marcou mesmo foi minha pós. Entendo assim a proposta do jogo, as cartas são o que de mais importante temos ou ocorreram em nossa vida, não relatam cada coisa que aconteceu.

    Um destaque especial para a arte espetacular de Piotr Socha Não há uma única carta que não mereça atenção e além de estilo muito peculiar, dando um ar extremamente engraçado, vez ou outra ele ainda dá umas alfinetadas ou faz uma leitura crítica do evento que está representando. Uma das melhores concepções artísticas dentre os milhares de jogos que existem por aí.

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    CV chamou minha atenção desde que soube de sua existência no início de 2014 e após jogá-lo, entrou na lista de meus dez dice games favoritos. Nessa linha leve e familiar, considero-o superior à King of Tokyo, por exemplo, por ser mais divertido, permitir mais opções e controle de nossas ações e ter um tema que pode interessar a um grupo maior. Com quatro jogadores, a partida tende a se estender um pouco, haverá situações que poderemos praticamente comprar tudo que está disponível e isso tomará tempo, obviamente. Lamento também que não há mais cartas, são 26, 20 e 17 nos três estágios de jogo, isso fora as de objetivo e infância. Entendo que não dá de inventar muita coisa maluca para não encher os currículos de bizarrices e que os combos e o balanceamento foi pensado nesse conjunto, mas ver quase todas as cartas em todas as partidas despertará o gostinho de quero mais! Já existe uma expansão, a Fofoca, que adiciona o passatempo favorito das comadres e as cartas de destino. Que venham mais expansões!

    Se você ama jogos de dados, quer algo leve, que gerará boas histórias e risadas, com um tema diferente e mais “maduro” do que muitos de seus concorrentes, CV poderá ser uma excelente opção. Bom, mas quem sou eu para dizer o que você deve fazer da sua vida, heim?

    Vale a pena ver os vídeos oficiais do jogo:

    Pontos positivos:
    – Permite viver uma história, uma caixa de pequenos contos da vida real
    – Arte fenomenal, divertida e com estilo único
    – Tema diferente
    – Com o grupo certo, dá de fazer pensar

    Pontos negativos:
    – Por mais que você planeje, a sorte pode atrapalhar em algumas partidas
    – Poucas cartas

    Ficha Técnica:
    Jogadores: 2 a 4
    Idade: a partir de 10 anos
    Duração: 60 minutos
    Tipo: caixa básica
    Fabricante/Desenvolvedora: Granna
    Idioma: Inglês
    Preço Médio: R$ 200,00

    ludopedia BGG

     

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

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    5 COMENTÁRIOS

    1. Adorei a explicação do jogo, os seus textos são inspiradores, sempre bom ler e a parte do imparcial falando apenas como o jogo é, são um show a parte, continue assim…

      me pareceu muito temático esse jogo, parece ser bom também para introduzir os adolescentes na migração da vida para a faze adulta, fazelos ententer as escolhas que temos que fazer na vida e o que pode acontecer em cada uma delas. Claro que estou especulando, mas pode sim ser usado para isso também, além de divertir e contar uma historia de vida….

    2. Muito obrigado, Wesley. Como falei no texto, o grande barato é ir montando e narrando a história e quanto a usar com os mais jovens, concordo plenamente! Grande abraço!

    3. O jogo parece bastante bacana, obrigado pelo review!

      Minha dúvida é em relação a avaliação – inicialmente afirmo que compreendo que é uma visão pessoal de cada um de vocês – mas a média de todos os critérios fica pouco acima de 6, mas a Nota Geral ficou em 8. Isso pode confundir um pouco quem leva a sério vossas avaliações como critério para compra ou não de um jogo. Não concorda?

      Forte abraço.

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