ANALYSIS PARALYSIS: TAMANHO IMPRESSIONA?

ANALYSIS PARALYSIS: TAMANHO IMPRESSIONA?

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    AP TAMANHO

    Hoje resolvi falar de um assunto polêmico, meio indelicado e que gera desconforto, inveja, raiva, vergonha, orgulho… Este tópico fica escondido por uns tempos, mas sempre retorna com novos debatedores. As opiniões, contudo, são sempre de dois tipos. De um lado, temos os que defendem que não interessa o tamanho, mas o prazer proporcionado. Outros mostram orgulhosos o tamanho que possuem e postam fotos despudoradas pelas redes sociais! Vamos falar de tamanho? Sem pudor e sem vergonha? De uma vez por todas?

    O volume de sua coleção de jogos (ou você estava achando que eu falava de quê?), antes de mais nada, diz respeito a você. Obviamente, se você a adquiriu com seu dinheiro, seu trabalho e de forma lícita. Poderia encerrar esta coluna por aqui, com a devida reflexão, este parágrafo, por si só, já possui muitas implicações. Não obstante, gosto de explorar mais as ideias e exteriorizá-las, além de deixar registrada minha posição para debates similares no futuro.

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    Ela, a estante, criatura polêmica, nua para vocês

    Quando alguém posta uma foto de uma coleção de centenas e centenas de jogos, sempre surgem comentários do tipo “quantos não veem mesa?” ou “duvido que jogue todos”. É ÓBVIO que nem todos são jogados!!! A intensidade de inveja e de preocupação com a vida alheia nestes comentários atinge níveis nada saudáveis. Se você tende a comentar isso, raciocine comigo e veja alguns pontos. E, se discordar, continuemos o debate de forma saudável nos comentários.

    Quantas vezes por semana você joga? Em um episódio passado do Meeple Maniacs, o podcast mais ouvido do Brasil sobre jogos de tabuleiro e que tenho o orgulho de co-apresentar, espantei-me com a quantidade de ouvintes que responderam uma ou duas vezes por mês! Por mês! Esperava ouvir estes números, mas com frequência semanal. Claro, muitos jogam toda semana, várias vezes até, mas acredito que todos jogam menos do que gostariam. Pois bem, se você joga toda semana, cinquenta jogos parece ser uma coleção de excelente tamanho, não? Praticamente um jogo diferente por semana durante um ano! Mas aí você teria de jogar o mesmo jogo apenas a cada 365 dias para mantermos esta linha de pensamento. Está pensando em jogar o mesmo jogo duas ou três semanas seguidas? Quer aproveitar as regras fresquinhas na cabeça e o hype nas comunidades? Explorar tantas cartas e tiles que ficaram de fora nas primeiras partidas? Aquela lançamento quentinho? Bom, que tal então trinta jogos? Passou disso, compre um, venda outro. Meu ponto é que se sua coleção passou de trinta ou cinquenta jogos, não faz muita diferença ter cem, trezentos ou quinhentos. Eles não serão jogados com a frequência merecida ou com a que você gostaria. Ter mais jogos, entretanto, fornece mais opções.

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    Coleção de Denis Oliveira

    Mas aí temos outra questão. As coleções não são grandes apenas pelas opções. A intenção, geralmente, não é simplesmente montar um cardápio para as visitas. As coleções ganham tamanho porque não queremos vender os jogos anteriores e, amigo leitor, este é verdadeiro ponto deste artigo: ter uma coleção!

    Não sei vocês, mas tenho milhares de CDs comprados, físicos e digitais, centenas de filmes, livros e jogos eletrônicos. Porque quase ninguém critica uma coleção de filmes? Com que você frequência você assiste ao mesmo filme? Uma vez a cada três, quatro anos? E mesmo que faça isso seria com uma parcela ínfima de sua videoteca. Uma coleção de livros ninguém tem coragem de criticar sob a pena de ser taxado de “sem cultura”. Com que frequência você lê o mesmo livro? Com exceção de 2001, uma Odisseia no Espaço de Arthur Clarke eu nunca li outro livro uma segunda vez. Até faço esta promessa a mim mesmo o tempo todo, de reler algumas obras fundamentais novamente, mas as novas leituras consomem o tempo para tal. Minha taxa então é uma vez a cada quarenta anos. E que tal quantos jogos de Xbox, Playstation ou em sua conta da Steam você tem? A menos que você cultive o hábito de ouvir, assistir ler, jogar e vender em seguida, suas coleções tenderão a crescer. Por que os jogos de tabuleiro são quase que o único alvo por estarem parados?

    “Porque eles são eventos sociais”, já ouço mentalmente a resposta mais comum. E os jogos e modos solo? E os filmes e discos não podem ser eventos sociais também? “Eles foram feitos para serem jogados!”, minha favorita, pois os livros foram feitos para serem lidos, os discos para serem ouvidos… Só de Richard Wagner, compositor alemão, tenho mais de duzentos CDs. Adivinhe se escuto todos? Não atribua a importância e o valor de algo pela quantidade de vezes que podemos usufruí-lo. Tenho obras pelas quais possuo extremo carinho e jamais iria me desfazer delas mesmo que passe anos sem tocá-las!

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    Coleção de Jaime Coelho

    Cada caixa, mesmo que parada por um tempo, pode ser fonte de mil lembranças distintas para seu dono. Ou foi um achado em algum lugar, uma pesquisa minuciosa sobre ele, um leilão disputado até o último minuto, uma sessão inesquecível, uma trilha sonora de fundo, uma partida com virada história, mais um jogo daquele designer que você aprendeu a admirar… Estas centenas de caixas em algumas coleções serão jogadas, estudadas ou, quem sabe, apenas admiradas. Cada coisa no momento certo e quando seu dono quiser. Quando vierem à mesa esporadicamente terão um destaque próprio, agregando ainda mais lembranças. Se vierem à mesa com mais frequência em determinadas épocas refletirão um anseio seu ou de seu grupo, quem sabe até uma mudança de vida ou de perspectivas.

    Se você não percebeu que pode estar fazendo a mesma coisa com outras coleções suas ou apenas não concorda, e é seu direito, vai um conselho: cuide menos do tamanho dos outros e cuide mais dessa sua mixaria!

    NOTA: As opiniões dos autores da seção Analysis Paralysis são pessoais e não refletem, necessariamente, a opinião dos demais colaboradores do site.

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    12 COMENTÁRIOS

    1. Grande Lukita,

      Parabéns pelo tema, realmente os Board games não podem ser culpados de ter seus fanáticos colecionadores. A minha coleção ainda é pequena só tem 4 jogos e ainda não vivo a preocupação com espaço e como cuidar dos jogos. Creio que você poderia depois escrever artigo sivrey isso.

      Abraços
      EXOR.

    2. Concordo 110%, Lukita! Se eu curto o jogo, reservo o lugar dele na minha coleção, mesmo que não jogar toda hora…

    3. Excelente texto, Lukita! Concordo inteiramente com seu ponto de vista.

      Mas, para dar a minha contribuição para esse tema, digamos, delicado, devo confessar que o tamanho generoso da minha coleção me produz certa angústia. Essa coisa de pensar que talvez eu venha a passar um ou dois anos (ou mais) sem jogar determinado jogo de que gosto me faz ter uma pena enorme dos meus jogos (ontem mesmo notei o meu Louis XIV num cantinho da minha estante, coitado, tão esquecido). Jogos têm sentimentos, nasceram para ser jogados. Sentem-se tristes e nos encaram (os meus me encaram) com certo olhar de angustiada expectativa. Ainda que eu os colecione aos montes, não consigo deixar de sentir certa tristeza por vê-los ali, parados, tão frustrados por não poderem realizar plenamente seu destino. Para me consolar, já cheguei a compará-los com vinhos, a pensar que estão na minha estante como vinhos numa boa adega, esperando ser bebidos (nesse caso, com grande e decisiva vantagem para os jogos, pois cada “garrafa” pode ser bebida várias vezes). Por tabela, tentei me comparar aos enófilos, aos sommeliers, que não se apiedam do transe em que vivem suas garrafas, mas nem assim encontrei consolação. Preciso, definitivamente, perder esses escrúpulos…

      Ah, Gostei muito das fotos das coleções. Na minha opinião, qualquer estante – e, por tabela, qualquer quarto ou sala – fica muito mais bonita cheia de jogos. De vez em quando chamo minha esposa ao computador pra mostrar a sala do Rahdo (acho que já a chamei umas dez vezes): Olha que sala bonita, amor, olha que linda a estante dele, cheinha de jogos, olha quanta cor e alegria. Minha esposa concorda comigo (sim, ela concorda), mas, pelo tom do seu “um-hum”, fico sempre com a impressão de que o pensamento dela, naquele momento, não está ali, ou de que ela não se anima muito com a ideia de que meus jogos transbordem do gabinete para a sala… Não sei, deve ser só uma impressão mesmo…

      Abraço!

    4. Como sempre direto ao ponto. Eu não costumo fazer coleção de nada, eu apenas tenho, simples assim.
      As vezes quando vejo a coleção dos outros faço assim… olha quero, quero, quero….

    5. Eu coleciono rótulos (não só o adesivo, a garrafa e tampa também) de cervejas… Jamais poderei julgar a coleção de alguém!

    6. lucas, você está quase que completamente certo com seu artigo. não acho 100% válida a comparação entre coleções de board games e de DVDs, discos, livros, etc. mas entendo que a questão, aqui, é COLECIONAR. e eu já fui um ávido colecionador. queria colecionar tudo (e por isso mesmo, nunca tive uma coleção decente de coisa alguma). então entendo perfeitamente o desejo de ter e ver centenas de jogos em sua estante. porém você esqueceu de ir mais além e não ficar no “ter uma coleção”, mas também explorar o “expor uma coleção”.

      não é comum em comunidades/grupos de música, filmes ou livros você encontrar fotos e mais fotos de coleções inteiras ou de produtos recém adquiridos. então por que no grupo de board gamers você sempre vê uma enxurrada dos jogos que acabaram de chegar pelos correios e das coleções de todo mundo? por que, nesse meio, existe tanta e tanta exposição?

      tenho minhas teorias, claro. e talvez falte, também, esse tipo de discussão nessa matéria para que ela ficasse mais completa. você apontou os “sentimentos ruins” naqueles que criticam a coleção dos outros (inveja seria o mais óbvio, naturalmente), e não está errado nisso. mas e os “sentimentos ruins” daqueles que precisam ficar expondo seus incontáveis (e injogáveis) jogos (orgulho…)?

      eu, particularmente, sou contra essa exagerada exposição de coleção e aquisição de jogos. não que eu seja contra a pessoa ter muitos e muitos jogos. como disse, já tive espírito de colecionadar. quer ter uma grande coleção de jogo? ótimo! sente orgulho e ciúmes dessa coleção a ponto de não deixar as pessoas nem chegar perto? ótimo! mas, sendo assim, qual o sentido em ficar dizendo “ei, ó o que eu tenho!”?

      mas isso ainda, para mim, não é nem o ponto. acho meio sem sentido essa exposição (generelizando, claro. sei que existem excessões). mas paciência. iso não desperta em mim nenhuma fúria incontrolável, muito pelo contrário. porém, o que considero problemático é que quando entro num grupo sobre board games, quero falar sobre board games, saber notícias sobre board games, aprender sobre board games. no nosso caso, acabamos obrigados a passar por 5 postagens de exposição de coleções antes de encontrar algo realmente relevante (ao menos pra mim).

      talvez o que realmente esteja faltando seja um grupo para colecionadores de board games. seria um espaço adequado e justo pra cada os colecionadores exporem e compararem suas coleções de maniera saudável, e sem poluir o espaço de quem não faz questão de ter centenas de jogos, muito menos de ver as centenas de jogos dos outros.

      abraço!

    7. Eu tenho grandes coleções de diversos itens. Em outras áreas isso não causa nenhum tipo de crítica, mas em jogos de tabuleiro rola essa estranha implicância. Eu adoro olhar as coleções alheias para comparar com a minha, ver o que eu tenho, o que já tive, o que gostaria de ter e até mesmo descobrir novos jogos. Também é interessante verificar a forma como as pessoas organizam, os tipos de estante que usam, as posições. Assim a gente pode descobrir novas formas de arrumar e conservar nossos jogos. No momento, os meus estão espalhados por vários locais da casa, só não tem jogo no banheiro e na cozinha. Eu tenho um armário, mas não estava cabendo tudo. Então, acabei deixando alguns jogos na sala, os mais populares para jogar com a galera. Mais jogos foram chegando e sendo colocados em outros locais vagos da casa. Acho que se eu parar para arrumar deve caber tudo em duas estantes daquelas de metal (tipo escolar). Nem tenho tanta coisa assim, devo ter quase 200 (contando com expansões). Mas minha relação com a coleção é bem afetiva, fico triste quando vendo, porque têm lembranças ali ou porque acho o jogo divertido, apesar de estar encostado pegando poeira. É uma mecânica interessante, um designer que eu gosto e/ou uma temática bacana. Enfim, espero um dia chegar ao nível de colecionadores que chegam aos 400-500 jogos. Ah! Adoro ver as fotos dos jogos de vocês. Fico babando sempre. Aquele foto de Memoir’44 com várias expansões foi incrível. 😛

    8. O problema é quando vc compra um cd e não ouve ele, ou compra um livro e não lê, ou ter vários board games na estante que ainda estão dentro do plástico. Mas cada um faz com o que quiser com seu dinheiro.

    9. Então, esse é o ponto! Gosto muito de música clássica, é comum comprar caixas com obras completas com 80, 120, 180 discos. Leva anos para ouvir tudo!

    10. Então, Aline! Que cisma que o povo tem com os board games! Com outras coisas, beleza! Realmente, não entendo! E Memoir é paixão, né? Muto obrigado pelo comentário.

    11. Olá.

      Concordo com praticamente tudo que você disse no post. Só acrescentaria que a crítica destrutiva também é ocasionada pelo desejo de chamar a atenção ou de mostrar desesperadamente que possui opinião “inteligente” (embora maldade e inveja sejam os principais). Isso não vai acabar nunca e a melhor luta contra é continuar mostrando as coleções e elogiando a dos outros.

      Agora off do assunto do post. Li que você citou ser apaixonado por Memoir 44. Qual seria a sua relação com Tide of Iron e pq a preferência pelo M44 (imagino eu)? De minha parte eu prefiro o ToI mas jogo M44 onlone (online + alone) todo dia.

      Abs.

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