ANALYSIS PARALYSIS: CASA DE MEEPLE, ESPETO DE TOKEN

ANALYSIS PARALYSIS: CASA DE MEEPLE, ESPETO DE TOKEN

    por -

    Estereótipo. Toda categoria tem um conjunto de características que nos vêm à mente quando ouvimos a mera menção do nome. Vamos brincar mentalmente com alguns grupos? Eu os escrevo e você os mentaliza fisicamente. Prontos? Vamos lá…

    Magos.
    Engenheiros Mecânicos.
    Nerds.
    Corinthianos.
    Guitarristas de heavy metal.
    Funkeiros.
    Modelos.
    Professores de Filosofia.

    Parece expansão de Smash Up, heim? Fisicamente, todos estes remetem a muitas imagens mentais que temos e, obviamente, não representam cada um de seus integrantes, mas os trajes, biotipo e linguagem corporal são muito similares em uma parcela representativa.

    Vamos agora fazer outro exercício, vejamos quais os conhecimentos e habilidades necessárias e indispensáveis para ser bem sucedido em determinado grupo. Melhor dizendo, o que esperamos que alguém de certo grupo tenha, saiba ou conheça. Releia os exemplos acima e pense nisso. Repito, não estou falando agora de características físicas. Eu espero…
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    Minha vez. Algumas coisas que espero dos grupos abaixo:

    Magos. (Conhecimento químico ou alquímico, botânica, idiomas)
    Engenheiros Mecânicos. (Matemática, Física, conhecimento de materiais)
    Nerds. (Cinema, quadrinhos, séries, jogos, animes)
    Corinthianos. (Amor irracional pelo seu clube de soccer e ódio por coisas verdes)
    Guitarristas de heavy metal. (Domínio extremo de escalas e velocidade de execução)
    Funkeiros. (Péssimo gosto musical, desafinação e vocabulário pobre e chulo)
    Modelos. (Desenvoltura, desinibição, conhecimento de idiomas)
    Professores de Filosofia. (Gosto pela leitura, postura crítica diante de tudo)

    Independentemente de seus estereótipos físicos, afinal temos guitarristas de heavy metal de cabelo curto e nerds sem óculos, não acreditamos na existência de engenheiros mecânicos ruins de Matemática ou filósofos que não gostam de ler.

    zakkwyldep_zakkclose
    Não corta esse cabelo, não, Zakk!

    E os jogadores de tabuleiro, os board gamers, espécie em franca ascensão numérica pelo planeta? Não me venham com o estereótipo físico porque este não funciona. O que esperamos, no entanto, que saibam? Que habilidades são necessárias para um board gamer ser bem sucedido neste hobby, digo, aproveitar e saborear as nuances desta atividade?

    No trato diário com o hobby e seus participantes, via contatos pessoais, redes sociais e sites especializados venho reparando algumas posturas que me fazem questionar como a interação jogador/jogos está acontecendo. Longe de mim querer dizer como cada um aproveita suas horas de lazer, mas quem me conhece sabe que preciso falar algumas coisas. Eis o que espero de um board gamer:

    LEITURA
    Demorou, mas conseguimos. Criar o hábito de leitura de matérias sobre jogos foi difícil. Sem falsa modéstia, afirmo que temos neste site alguns dos melhores reviews em texto em nosso idioma, fora outros assuntos paralelos. Boa parte de nosso público aguarda e reage do mesmo modo a uma produção textual, quanto a uma em vídeo. Não perco uma oportunidade em dizer que ainda, falo de todos os sites e blogs, escrevemos pouco. Os textos estão aumentando dentre os vários canais e grupos e gosto de pensar que temos uma parcela de incentivo nisso. Mas que venham mais, muito mais! A quantidade diária de texto que se produz sobre videogames e esportes, por exemplo, duas atividades extremamente visuais, é assustadora. Óbvio, são mais populares, mas, proporcionalmente, ainda escrevemos abaixo do que jogamos.

    A leitura é a ferramenta número um do board gamer. Manuais, FAQs, erratas, dúvidas em fóruns, reviews… Não falo em meramente saber ler, falo em saber interpretar, extrair informações, compreender a ponto de executar bem as instruções. Inúmeras vezes alguém quer saber mais sobre o jogo X e nós colocamos os links para algum texto ou link para o manual e vem a pergunta: e o gameplay quando sai?

    Não me levem a mal, assisto a muitos gameplays, mas eles jamais serão a minha fonte primordial de decisão, até porque podem passar a sensação errada, já que o sucesso dos jogos depende de seu grupo. Uma partida em vídeo com muitas risadas e zoação pode não funcionar em seu grupo introspectivo ou uma partida em dois pode não revelar as interações e implicações de uma mesa cheia. Temos também um canal no YouTube cujo foco não é em gameplays, estes são e serão apenas alguns dos programas. Acreditamos mais no “tire suas próprias conclusões” e, neste quesito, prefiro mil vezes uma resenha em texto, para ser absorvida com calma, sem o atrativo impacto visual dos jogos cada vez mais bonitos no vídeo.

    1-so-many-headers-in-this-header
    Manda mais!!!

    Temos ainda a grande vantagem de ter os manuais disponíveis para leitura. Este é o item fundamental de sua decisão de compra, pois, cedo ou tarde, você terá de passar por ele. Com o tempo, a simples leitura do manual dará uma bela ideia do ritmo da partida. Quer comprar um jogo, LEIA SEU MANUAL. Depois, complemente com textos, fóruns, vídeos. Desaponta-me a quantidade de jogadores que pretendem aprender a jogar algo, exclusivamente, com vídeo. Lançamos dias atrás um tutorial super completo e detalhado de The Gallerist, um jogo pesado, com muitas minúcias. Não seja louco ou preguiçoso de jogá-lo sem uma fina leitura e releitura do manual. Preguiça de ler não é aceitável neste ramo!

    CAPACIDADE DE ESCOLHA
    Isto posto, chego em meu segundo ponto. A capacidade e a determinação de escolher. A cada rodada de cada turno de cada partida de cada jogo, você precisa escolher. E escolher algo é abrir mão de todo resto. Você escolhe uma ação para ganhar certo benefício, com isso deixa de obter outros que são tão interessantes quanto. Você tem de pensar no curto, médio e longo prazos e você faz isso sozinho, em meio a seus pensamentos, vez ou outra, talvez, consultando os experientes naquele título.

    A mesmíssima coisa acontece quando você pretende adquirir um novo jogo. Você tem de pensar no novo espaço ocupado pela caixa, no gasto, no que ele trará de diversão imediata e ao longo dos meses e anos… A pergunta é: por que você não faz isso sozinho ou consultando os experientes? O que mais se vê, contudo? Alguém perguntar: “Galera, jogo A ou jogo B?”. E as respostas: “A”, “B”, “A”, “A”, “C” (sempre tem um anarquista), “A, mas pega a expansão” (sempre tem um consumista), “Selene” (sempre tem um piadista), “coxinha” (sempre tem um “treteiro” chato das quintas-feiras). Sério que tem gente que prefere perguntar a um bando de desconhecidos o que é melhor comprar? Com respostas dadas em uma palavra, sem conhecer o indagador, seus gostos pessoais e seu grupo? A pergunta é tão eficaz quanto perguntar o que devo almoçar amanhã. Muita gente produz material sobre os jogos de tabuleiro em nosso idioma, consulte, pergunte ao autor daquele vídeo ou texto. Que eu saiba, todos que produzem conteúdo são sempre muito solícitos. Volto ao ponto já citado, quando posto um link de review para leitura, espero que a pessoa entenda os pontos levantados, positivos, negativos, características mecânicas… leia várias matérias, assista a vários vídeos, tire dúvidas com quem você acha que tem um estilo parecido com o seu ou com pessoas experientes do ramo. Reúna informações e tire suas próprias conclusões, lembra? Não saia proclamando uma votação em múltipla escolha com eleitores desconhecidos. A não ser que a preguiça em pesquisar seja maior, mas o dinheiro a ser gasto é seu, afinal!

    ti bora
    “Melhor perguntar para dezenas de desconhecidos no Facebook…”

    PACIÊNCIA
    Muito deste hobby está nos rituais. Abrir a caixa, separar calmamente os tokens e os componetes, colocar sleeves, observar as artes das cartas, do tabuleiro, folhear o manual. Já faço isso até com a trilha musical que usarei nas partidas para ir sentido o clima. E a paciência é exigida na aprendizagem de cada novo sistema de regras. Sabe quando você compra um eletrodoméstico ou eletrônico novo e pula o manual, por ter uma excelente noção do que fazer, consultando-o apenas para funções muito específicas? Neste hobby não dá! Corte as suposições, mastigue as informações e, com, isso, voltamos ao hábito da leitura e como tudo gira em torno dele. Nosso hobby é extremamente cultural até por forçar este hábito que vem se perdendo. O prazer de ler, o prazer de aprender, o prazer de ser desafiado sob um novo universo normativo. Isso toma tempo, demanda paciência.

    Paciência também para analisar variáveis, esperar os companheiros de mesa a tomar as decisões deles, aceitar a derrota, administrar respeitosamente a vitória , organizar e arrumar um setup sem erros. Erros acontecem, não estamos dentro de um jogo eletrônico que nem dos dá a chance de errar por oferecer tudo pronto, mas vejo erros absurdos de regras por leituras (ou a total ausência de leituras) descuidadas e apressadas do manual. Percebem que os tópicos se entrelaçam? Antes de perguntar algo, que tal ler o manual completo pelo menos uma vez. A resposta pode vir no entendimento maior do jogo. Que tal pesquisar antes na Ludopedia, no boardgamegeek ou até mesmo no Facebook antes de criar o 15º tópico semelhante da semana? Tudo isso toma tempo, claro, mas o nosso hobby não é para os apressados. Além disso, com estas pesquisas, você pode até descobrir coisas que não estava procurando.

    search
    Custa?

    Com o crescimento de nossa atividade, muitos e muitos novos jogadores aparecem a cada dia. O que fazemos sobre a mesa é diferente. É lazer, é diversão, é raciocínio pesado, é cultura, é leitura, é socialização… Não entenda estas linhas como um sermão, mas como um pequeno guia para você exercitar áreas que permitirão uma maior interação com o hobby. Ler e pesquisar, tomar decisões, ter paciência são características que espero encontrar em cada jogador.

    E não me venham falar de funkeiros letrados!

    Abraços analógicos!

    NOTA: As opiniões dos autores da seção Analysis Paralysis são pessoais e não refletem, necessariamente, a opinião dos demais colaboradores do site.

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    7 COMENTÁRIOS

    1. Em parte e verdade ainda somos muito dependentes de gameplay, para muitos as vezes o manual em outra língua se torna o tabu. Apesar que na ludopedia já ter vários manuais traduzidos eu já baixei vários, mas comentários sobre jogos ainda a poucos e mesmo o review pelo YouTube as vezes não ajudam. Exemplo se fosse pelo pessoal do jogando ofline eu nunca teria comprado agrícola , porque eles falaram que o jogo era horrível, no review deles sobre caverna. E porque diabos comprei o jogo então depois de muita pesquisa e leitura até aqui deste site. O queme impressionou mais no jogo e a renovabilidade e variação que as cartas dão a cada nova partida. Mas se eu não tivesse lido isto talvez jamais teria adquirido o jogo. ótimo trabalho Lucas e está certo precisamos de mais conteúdo em português para boardgames.

    2. Pois caro mestre Lukita, também acredito que o perfil de um board gamer deve conter estas habilidades bem desenvolvidas pois é um hobby e não se gosta de um hobby se não tem habilidade para ele, por exemplo um cara que quer andar de patins se não tem coordenação, noção espacial, bom equilíbrio só vai se estrepar e desanimar com a atividade.

      Nós dA Tenda estamos tentando trazer mais novos gamers levando o mastigado para as casas das pessoas, pois muitos nem sabem que podem gostar de boards pois desconhecem a magnífica variedade que existe deles hoje…

      Obrigado pelo texto e continue a escrever que continuaremos a ler e aprender com quem gosta e entende este lindo hobby.

    3. Sempre, e repito, sempre uma boa leitura os seus textos.

      sobre a caracteristica dos boardgames, concordo que com as “habilidades” sitadas é o que diferencia um bom jogador de um mal jogado. é bem desagradavel jogar com pessoas que são… diagamos… ‘sabixonas’ (por falta de uma palavra menos agressiva), deixa o jogo massante, chato, pesado e interminável. Já tive experiencias assim. Enfim, parabens pelo texto e espero que mais pessoas possam pensar assim e deixar o jogo mais agradável…

    4. Ótimo texto! temos que escrever mais, realmente. E ler é fundamental para um “boardgamer”.

    5. Ótimo texto Lucas! E que vale não só para Board Games como para a vida inteira!

      Abraço e parabéns pelo ótimo “trabalho”!

    6. Como comecei no hobby a 1 mês, vou contar como é o meu processo até a compra.
      Como conheço pouco essa área, começo vendo uns videos do Jack e Lukita pra saber do que se trata o jogo, e ,se agradar, eu procuro outros videos com vários gameplays , cada um gravado à sua maneira. Já numa terceira etapa, procuro textos aqui no meeplemaniacs e vou correndo comprar !!!
      Confesso que leio muito menos do que deveria, mas adoro os textos daqui e cada vez fico mais viciado nesse mundo Boardgamer. Ainda falta um grupo pra jogar, mas estou trabalhando nisso.
      Abraço ao pessoal meeplemaníaco !!

    Deixe um Comentário