SOBRE A MESA: DRAGON’S GOLD

SOBRE A MESA: DRAGON’S GOLD

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    pic1054351Matar um dragão é relativamente fácil. Com tempo, experiência e muita observação e treinamento, fica até simples prever o comportamento do grande lagarto! Junte um grupo bem coordenado, mas com habilidades distintas e está pronta a receita para o sucesso. O problema vem depois. Espanta-me o que vem a seguir, pois nenhum treinamento é capaz de lidar com a vontade humana. Desejos, caprichos, necessidades ou o puro egoísmo. Ao mesmo tempo que somos capazes de derrotar um desafio comum, mesmo que, aparentemente, imenso e invencível, conseguimos desmanchar, em instantes, qualquer laço de lealdade quando falamos sobre o devido quinhão, os espólios, a divisão, o que é merecido. Dragon’s Gold não é um jogo sobre a cooperação em nome da superação, é um jogo sobre interesses disputados sob a emergência do tempo.

    Lançado em 2001, Dragon’s Gold é um jogo de Bruno Faidutti (Citadels, Tesouro Inca, Mission: Red Planet, Mascarade, Mystery of the Abbey, Red November e tantos outros) focado na negociação. Cada jogador controla uma trupe de aventureiros que, em conjunto, eliminam dragões, mas são colocados à prova na hora da partilha do tesouro. Apesar de não muito badalado é um exemplar muito interessante do gênero.

    Mecânica:
    – Gerenciamento de mão
    – Coleção de conjuntos
    – Trocas

    O time de aventureiros de cada participante é formado por dois guerreiros, um mago e um ladrão, representados por cartas com um único valor de ataque.

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    Team purple for the win!!!

    Sobre a mesa, uma fileira com quatro dragões é disposta aleatoriamente dentre um baralho exclusivo para as criaturas. Cada carta de dragão possui três números. Um superior central representando o poder, pense como se fossem os pontos de vida, um número inferior esquerdo representando a quantidade de tesouro conhecido e um número inferior direito representando o tesouro escondido. Para cada carta é comprada, de um saco de pano, uma quantidade de fichas coloridas igual ao número do tesouro conhecido. Estas são colocadas sobre cada dragão revelado à mesa. Temos moedas, ouro, itens mágicos, safiras, esmeraldas, ametista, âmbar, diamantes e até um diamante negro amaldiçoado!!!

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    Partida em andamento

    Em seu turno, o jogador simplesmente coloca um de seus aventureiros abaixo de um dragão. Somam-se os valores de todos os heróis que ali estão, se for o caso, e se este total for maior ou igual do que ao poder do dragão, este é morto e começa a partilha. Mais tesouro é acrescentado pelo número tesouro escondido do mesmo modo: comprando fichas ao acaso do saquinho. Com isso, você pode achar que eliminar certo dragão pode ser uma boa, pois você já analisou o tesouro disponível, mas a sorte pode dar alegrias a algum concorrente que ajudou na batalha.

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    My preciooussss

    Vamos falar da partilha do tesouro. Dragon’s Gold é sobre isso! Todos os jogadores que colocaram aventureiros no dragão morto participarão da divisão. Tesouro aberto e tesouro oculto já na carta e viramos a ampulheta. Nos malditos sessenta segundos, todos deverão chegar em um acordo sobre quem fica com o quê. Todo o tesouro deve ser dividido e não se pode apelar para a sorte para tal. A negociação deve ser direta, total e precisa. A primeira impressão do novato é pensar: basta dividirmos igualmente e todos ficam felizes. Engano! Poucas vezes você aceitará uma divisão igualitária, pois cada ficha de tesouro tem um valor diferente na pontuação final, as gemas podem pontuar conforme a maioria possuída por um jogador ou conforme cada conjunto cromático completo, de acordo com o modo de jogo escolhido. Como cada um está atrás ou de uma pontuação diferente ou, pior ainda, igual, há pouco acordo nos primeiros instantes. Alguém dirá, “podem ficar com tudo, quero apenas esse azul”. A mesa concorda, até que alguém percebe “por que ele quer apenas este azul”? Como o tesouro pessoal fica escondido, a discórdia e a especulação começa. Ele quer o azul para completar uma coleção de cores, para prejudicar alguém na mesa? Pense em todos tratando de seus interesses ao mesmo tempo enquanto a areia cai, nem tão lentamente quanto parece.

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    Os magos e ladrões têm poderes especiais. Quem colocou seu feiticeiro em um dragão derrotado, tem o direito de comprar uma carta de item mágico para cada ficha vermelha conquistada após a partilha. E estas cartas conferem todo tipo de benefício e truques, como a Nuvem Fedorenta que afasta um aventureiro de um dragão para outro ou o Pó da Fraqueza que faz uma vitória heróica e apertada não acontecer. São 24 cartas com este tipo de diabruras. O ladrão permite que você roube, aleatoriamente, uma das fichas de um dos jogadores envolvidos. Seu mago e seu ladrão estavam na mesma batalha? Melhor ainda, o mago permite que você escolha o que roubará!

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    A cada dragão exterminado e a cada partilha concluída, revela-se um novo dragão, coloca-se o tesouro conhecido e a partida segue de modo semelhante. Quando a última ficha de tesouro for comprada do saco de pano, enfrentam-se apenas os dragões na mesa. Com todos mortos, o jogo acaba, revelam-se os tesouros e contam-se os pontos conforme o modo básico ou avançado escolhido.

    Considerações Finais:
    Antes de mais nada, este não é um jogo para os fracos de espírito. Eu amo jogos de negociação, pois revelam o que temos de mais humano à mesa, seja isso bom ou ruim. Não à toa, Cosmic Encounter e Diplomacy são dois favoritos meus de todos os tempos. Se Diplomacy é a caixa de Pandora, Dragon’s Gold é a latinha de Pandora. Por ser um jogo rápido, entretanto, os nervos não afloram tanto como em Game of Thrones, por exemplo. Uma coisa é disputar por horas e horas e levar um golpe do parceiro. Outra é disputar uma partida de trinta minutos com oponentes frente a frente um tesouro cujo tamanho é conhecido. O que está em jogo é menor, os ânimos tendem a não se exaltar tanto. Eu disse, tendem. A maldita areia (já falei isso?) muda tudo. Os impasses acontecem, pois os interesses são diferentes e a pressão do tempo é que potencializa isso. Se o tempo acabar e não acontecer acordo, todos perdem o tesouro. E aí você precisa daquela última ficha daquele tipo, quase ao final da partida, vai deixar quieto? Cruzar os braços e fazer uma única proposta irrevogável e torcer para os demais serem tão cabeças duras quanto você? Nos Estados Unidos, muitos não gostaram da proposta. Nesse ponto, somos um povo muito mais descolado e bem resolvido. Nesta nova edição, o manual até oferece uma variante que exclui a negociação, mas você não vai jogar Dragon’s Gold sem negociação. Seria como ir a uma excelente cervejaria artesanal para tomar refrigerante.

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    Belíssima produção e as cartas cabem com sleeves

    Um jogo leve, rápido, facílimo de ensinar e que tem na interação feroz da mesa seu ponto forte. Para os fãs de jogos de negociação é uma opção muito agradável.

    Pontos positivos:
    – Negociar pelo que você quer
    – Negociar pelo que você quer e em 60 segundos
    – Negociar pelo que você quer e em 60 segundos e lembrar do que os demais pegaram
    – O final é sempre uma expectativa

    Pontos negativos:
    – Você não tem muito controle das situações
    – Precisa ser avaliado se é adequado ao seu grupo

    Ficha Técnica:
    Jogadores: 3-6
    Idade: a partir de 8 anos
    Duração: 40 minutos
    Tipo: caixa básica
    Fabricante/Desenvolvedora: White Goblin Games/Fire on Board (no Brasil)
    Idioma: Inglês
    Preço Médio: R$ 180,00

    ludopedia BGG

     

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    3 COMENTÁRIOS

    1. Vou iniciar o meu comentário com as palavras mágicas, “puta que pariu”…. auhauhuahuah

      Esse jogo parece ser demais, 60 segundos para repartir um tesouro com pessoas que querem o mesmo que você, fantastico… só de ler a resenha já consegui sentir um pouco da tensão e da diversão que esse jogo pode proporcionar. E o melhor para mim, não dura uma eternidade, pois e experiencia que tive com Game of Thrones foi demais, 7h de jogo, 30min para planejar 3 ações… afeh… é muito. Eu gosto de jogos longos, não tenho problema quanto a isso, desde que não fique 30min esperando sem nada a fazer… enfim.

      O jogo me pareceu bem promissor a ser adquerido para jogar com familiares e amigos.

      Mai uma vez parabens pela resenha, adoro degustar todas as palavras, continue assim que por aqui vou “espalhando a palavra”

    2. É um jogo para bater na mesa, discutir, argumentar… com a galera próxima ou família é show! Muito grato pelos elogios!

    3. Olá Lucas! Esse jogo foi anunciado pela Fire On Board? Não vi no site deles. Você sabe de alguma previsão de lançamento? Desde já, muito obrigado!

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