ECONOMIA COLABORATIVA E JOGOS DE TABULEIRO

ECONOMIA COLABORATIVA E JOGOS DE TABULEIRO

ECONOMIA COLABORATIVA

Repensando formatos para universalização do hobby no século XXI

É muito bom ter um hobby para chamar de seu.  Fui aprender aos 32 anos a reinvenção dos jogos de tabuleiro. Entusiasta por história e geopolítica fiquei sabendo de um jogo que simulava a luta entre o comunismo e o capitalismo. A essa altura todos já devem saber que estou falando de Twilight Struggle.

Caminhando mais um pouco descobri que em 2015 foram lançados vários outros jogos de geopolítica interessantes: Churchill e Triumph & Tragedy para citar alguns, porém estou caçando-os no mercado de usados graças ao fato de estarem out of stock.

A mesa de debates e a Europa durante a Segunda Guerra em Churchill.

Existe o problema do preço, sim. Jogo de tabuleiro é um hobby para a elite da população. Os jogos de tabuleiro não atingem as camadas sociais mais baixas que adorariam, podem ter certeza, construir novas pontes de relações sociais e entrar para neste universo.

Para ilustrar, um jogo importado com frete, impostos e conversão do dólar chega facilmente a 400 reais. Um console de ultima geração custa pouco mais de 1000 reais, porém comportam uma infinidade de jogos em torno de 100-200 reais, todavia não possui a virtude de estimular as relações sociais, a inteligência e a diversão como um jogo de tabuleiro, sem contar o processo criativo gerado nos jogadores. É muito mais factível envolver-se no desenvolvimento de um jogo de tabuleiro do que em um jogo de console de última geração.

O problema do espaço: vamos ser sinceros. É lindo ter uma prateleira de boardgames todos arrumados, por fabricante, gênero, cor da caixa ou tamanho, ou seja lá mais o quê. O ludomaníaco possui vários critérios de arrumação de jogos, porém uma coisa é constante: o problema do espaço. É muito difícil atualizar a mobília da casa para comportar o acúmulo de caixas de jogos. Se você é solteiro(a) tem a vantagem de não ter ninguém para criticar seu habito acumulador. Se você mora com mais pessoas, alguém vai acabar reclamando.

Isso cabe em seu apartamento?

O mais engraçado de tudo é que grande parte das reclamações tem alguma razão. Quantos jogos você sequer abriu? Quantos sequer sabe as regras? Quantos jogos sabe que não conseguirá arrumar um grupo para jogar? Quantos jogará uma vez? Quantos jogará até quatro vezes. Agora divida o valor do jogo pela quantidade de vezes que o mesmo irá para a mesa. A resposta pode ser desoladora.

Muitas vezes, comprava um jogo apenas para ter uma experiência, já que o produto gerava grandes expectativas. Tinha mais em mente experimentar o jogo do que propriamente fazer um investimento, onde nem sabia se teria boa recepção no grupo que jogo.

A solução seguinte é: “vou vender o que não jogo”. Tudo bem, o mercado brasileiro, diferentemente do estrangeiro, repassa jogos a preços muito próximos do valor de um jogo novo, dependo da situação. É uma vantagem para o vendedor e uma desvantagem para o comprador, falando em termos relativos. Porém nem todos estão dispostos a comprar jogos usados e o vendedor tende a acumulá-los se não conseguir repassá-los por um bom preço.

Em quase todos os casos o que ocorre é um prejuízo. Muitos jogos não arrematados voltam à prateleira e se forem revendidos será por um preço ainda menor e, na maioria das vezes, aquele dinheiro é reinvestido em novos jogos.

Diante da dificuldade de se comprar produtos caros, de uso ocasional e, muitas vezes raros, os entusiastas pelo hobby podem começar a pensar na principal tendência econômica do século 21 — a chamada economia colaborativa.

Da mesma forma em que pessoas financiam projetos específicos com contrapartidas pré-definidas como ocorre em plataformas de financiamento coletivo como o kickstarter, seria muito interessante pararmos para pensar na possibilidade de financiar a universalização deste hobby seguindo a constatação de que há tantos jogadores sem jogos e tantos jogos sem jogadores.

No caso desse hobby seria o chamado Lifestyle colaborativo que se baseia no compartilhamento de recursos, tais como dinheiro, habilidades e tempo.

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Um procedimento de pegar emprestado e ter o controle, definindo por quanto tempo seria permitido ficar com certo título, se o grupo teria também um local com mesas para as sessões, enfim existem muitas possibilidades e fatores a serem pensados e minha ideia é aumentar os horizontes e não restringir. A deliberação do formato poderia incluir se seria feita uma associação recreativa, uma empresa onde cada um teria uma cota conforme o que teria disposto a ceder, ou até quem sabe uma parceria público privada?

Creio que a universalização do hobby dependerá não da capacidade pessoal de investimento, mas da capacidade de os praticantes conseguirem, organicamente, organizarem-se de tal forma que seja criado um banco de jogos e que cada grupo estabeleça como se associar, com o que cada um pode contribuir, seja com jogos ou com uma mensalidade que caiba no bolso da comunidade.

NOTA: As opiniões dos autores da seção Analysis Paralysis são pessoais e não refletem, necessariamente, a opinião dos demais colaboradores do site.

Advogado, idealista, mas pessimista “black cloud”, jogador de RPG, amante de geopolítica e designer de boardgame de geopolítica que tem tudo para dar certo ao misturar Twilight Imperium e várias unidades militares em um mapa de Twilight Struggle. Acredita que o boardgame pode ser uma forma de educar e divertir todas as classes sociais ao se tornar um hobby universalizado com apoio de políticas públicas voltadas para áreas carentes. Ansioso para o filho de 1 ano tornar-se padawan. Outros interesses: RPG, cultura cyberpunk, ficção científica, film noir, filosofia, astronomia, mas não acredita que o homem foi à Lua, teoria e “prática” da conspiração e da revolução.

3 COMENTÁRIOS

  1. Aí a gente acorda e vê que vive no Brasil, onde o consumidor aluga DVD/Blu-Ray e usa para polir o chão… Quem dera a gente poder compatilhar as coisas assim como disse…

  2. Adorei o Post.

    Acredito que os jogadores deveriam emprestar mais seus jogos pouco utilizados para dar essa oportunidade do de quem não pode pagar ou não conhece ter acesso aos jogos. Isso ajudaria a difundir nosso próprio hobby Só assim vamos ter um mercado expressivo no brasil para todos os grandes jogos virem para cá, e para que cada vez mais possamos desenvolver a industria nacional.

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