O MERCADO NÃO É O FACEBOOK

O MERCADO NÃO É O FACEBOOK

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    mercado facebook

    A internet e suas manifestações de integração social ao longo dos anos, desde os fóruns específicos e salas de bate-papo dos anos 90, passando pelo finado Orkut e chegando às redes mais populares de hoje como Facebook, twitter etc. tem como um de seus objetivos primordiais agrupar pessoas que compartilham um interesse em comum. As mais diversas contas, páginas, comunidades, grupos e perfis atreladas a um gosto, produto, comportamento ou ideia pode atrair centenas, milhares ou até mesmo milhões de aficcionados. Numericamente, é uma amostra do conjunto formado pelas pessoas interessadas, obviamente, mas como toda amostra pode não ser o medidor ideal. Não quero transformar estas linhas em análises estatísticas, apenas refletir sobre um comportamento que observo frequentemente em nosso meio.

    Somos um nicho! Lemos e ouvimos isto semanalmente e qual o número de jogadores de tabuleiro pelo país parece ser cada vez mais um mistério. Podemos analisar as vendas de um título arrasa quarteirão de uma grande editora? Os pedidos de todas as lojas? Os frequentadores de um evento ou convenção? Quantas pessoas formam ou seguem determinado grupo virtual? Ótimos indícios, claro, mas são apenas mais amostras. A venda de um único exemplar de um jogo já levanta questões, pois, diretamente, não sabemos quantas pessoas usarão o produto. O comprador jogará sozinho, em dupla, com mesa cheia? Com jogadores regulares de um grupo fixo ou mostrará para vários novatos? Emprestará para colegas? Levará em eventos? Afinal, quantas pessoas terão acesso direto àquele único exemplar? E, indiretamente, quantas pessoas terão despertado seu interesse ao ver uma foto em rede social ou ouvir algum colega comentar que conheceu algo muito legal no final de semana passado?

    Temos dois grandes agregadores virtuais de interessados no Brasil, a Ludopedia e o Facebook. A Ludopedia é, quase sempre, um contato para iniciados, já o Facebook…

    Ah! O Facebook! A ágora moderna, onde todos categorizam, no sentido literal grego da palavra e defendem suas posições e verdades com tanta convicção que os embates ideológicos já são quase condição sine qua non da própria rede. Mas não quero falar das contas pessoais e seus palanques, quero falar do maior grupo do Facebook destinado ao hobby, o Boardgames Brasil. Seus mais de 14 mil membros podem ser o termômetro do mercado, certo? Errado!

    Assim como não sabemos quantos jogadores um único exemplar de um jogo atinge, fica a pergunta: quantas pessoas acessam o citado grupo? Com que frequência? Quantas são realmente jogadoras ou interessadas? Quantas leem os tópicos? Ou você não tem aquela impressão de ver sempre os mesmos rostos postando ou comentando? Dia após dia! Então? Quantos são os leitores assíduos? Metade dos 14 mil? Um terço? Um décimo? Apostaria em menos ainda.

    Faz pouco tempo que percebi o que é, de fato, o Facebook e suas manifestações em subconjuntos. É a rede para postar foto, seja daquela refeição ostentação que você consome de quando em vez ou de filhotinhos fofinhos fazendo coisas engraçadas, ou para bajular e invejar estas mesmas coisas. Claro, fotos de jogos de tabuleiro também são bem-vindas. Mas depende da época. Já vi momentos em que postar foto de caixa era desonra, pois jogo é para ser jogado e há momentos em que “tá tranquilo”. Por enquanto, estamos nessa última. E, claro, fotos sempre com nome. Além disso, é desperdício de tempo e energia. Textão político, militância, discurso? Não! Tem lugar melhor para isso, nem que sejam nos bares com amigos. Quando entendi que esta rede é sobre as amenidades da vida, mudei minha postura sobre ela e até meu humor! 

    Para isso, serve!

    Sobre o Facebook e os jogos de tabuleiro queria comentar três óticas. A primeira é a do consumidor que ainda prefere jogar uma pergunta sem sabermos nada de seu perfil para que um grupo de estranhos indique como gastar seu dinheiro. Mesmo com dezenas de produtores de conteúdo no Brasil e no mundo. Já falei sobre isso aqui e falarei mais em uma coluna próxima, sobre o fascínio místico do Dr. Estranho, aquela cara desconhecido do outro lado da tela cuja resposta em uma palavra em um questão em múltipla escolha define o comportamento de compra. 

    A segunda é a das empresas, que não sei se perceberam, não estão nem aí para o Facebook. E com razão. Facebook não é atendimento ao consumidor, nem portal de anúncios. As menores ainda utilizam, pois precisam de um contato mais direto com seus clientes, mas mesmo assim, sabem (espero) do que estou falando no título deste texto. Isso é mais comum em campanhas de financiamento coletivo onde o recente apoiador quer sugerir mil coisas, sem se preocupar que o jogo em questão possa ter sido testado sem aquilo tudo, mas o apoiador se sente meio dono do projeto, deixando a empresa em situação delicada. A empresa finge que gostou e a vida segue. Muitas vezes, isso parte dos próprios criadores, fazer o quê?

    A terceira é o do designer que, quando em vez, consulta a “comunidade” sobre o que ela prefere? Esse se confunde em muitos pontos com as empresas acima, mas aqui é pior. Tema A ou tema B. Arte X ou Y. Mecânica alfa ou beta? Quem pergunta isso só pode estar querendo maximizar o retorno de seu projeto, se é que posso chamar de projeto algo sem a menor diretriz, pois estas são perguntas cruciais para determinar o nascimento de um jogo. Quantas pessoas você espera que respondam isso? E quantas têm real interesse em seu jogo? E se quem votou em A não for atendido porque B foi escolhido? Já vi designer wannabe receber menos de dez respostas e orientar seu projeto naquela direção. Quer entrar nessa? Pesquise MUITO, estude MUITO e converse MUITO com quem tem know-how no assunto! Seja sobre produção, o design em si, distribuição etc.

    Para concluir, conheço tantas pessoas que não usam Facebook, tantos jogadores e compradores que não têm Facebook, ou que até tem conta, mas não integram grupo algum e você iria se espantar com quantos são se houvesse um jeito fácil de se perguntar isso. Costumo dizer que a grande maioria dos brasileiros não gosta de Carnaval, mas como estão espalhados em seus afazeres são ofuscadas pelos foliões aglomerados nas ruas e nos clubes. Temos estes aglomerados virtuais nos grupos, mas não sabemos quantos estão fora deles. Imagine qualquer outra atividade e o quão representativos são seus grupos. Pense em cinema, séries, música, esporte, futebol. Um grupo define a prática, a criação ou o consumo dessas atividades? Pense nisso quando quiser fazer ou saber algo sobre sua relação com os jogos de tabuleiro e o Facebook. Seja pessoal, artística ou comercialmente. Parte do mercado, aquele que nem sabemos ao certo qual o tamanho real, está no Facebook, não há dúvidas, qual parcela, entretanto, é muito mais difícil precisar.

    NOTA: As opiniões dos autores da seção Analysis Paralysis são pessoais e não refletem, necessariamente, a opinião dos demais colaboradores do site.

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

    8 COMENTÁRIOS

    1. Muito pertinente sua análise. Eu mesmo faço "parte da comunidade" mas dá para contar nos dedos de uma mão quantas vezes apareci. Fico como espectador de um show de ostentação em períodos de "crise". São as mesmas caras aparecendo e postando fotos. Confesso até que estou ficando meio "enojado" com tanta postagem desconstrutiva para o hobby, mas enfim, mídia social nenhuma mede quanto anda nosso querido "passa-tempo".

    2. Fala Aí Lukita! Boa tarde! 
      Li o seu post e confesso que fiquei meio indeciso no que pensar sobre ele. Digo isso pois vejo os seus vídeos e já nos falamos algumas vezes pelo Facebook e acho que há sempre 3 lados da história, "o seu", "o meu" e a verdade. 
      Digo isso por que enxergo o Facebook, no caso as comunidades, como uma ferramenta. O que escreveu me passou essa ideia, de que você pensa igual, mas assim como eu, o que estraga são os frequentadores, estou certo???? 
      Acho que assim como a ludopedia, as comunidades tem seu valor e ainda penso mais a frente, não seria o caso de haver integração entre elas? 

      Acho que assim como o carnaval, a informalidade na conduçãode ambas talvez atrase muito essas previsões/estatisticas.

      A diferença é que o mercado do hobby está novo ainda, enquanto o do carnaval tem, sei lá, 100 anos?

      Vamos aprender com os erros dos outros e faze o hobby crescer e se profissionalizar!

      Abraços 

      Thiago Carneiro

    3. Lukita, concordo com sua visão nos 3 pontos principais.
      Em especial sobre a ótica das empresas você está corretíssimo.
      Sou lojista desde 2001 e de 2012 pra cá investi na montagem de um publico especificamente nerd no qual sempre fiz parte enquanto consumidor.
      De fato as redes sociais não geram conversão de vendas e servem apenas para tangibilizar o negócio, ainda mais em tempos de tantas fraudes, e pseudo-lojas que não passam de um quarto onde o MEI (micro empreendedor individual) guarda o seu super estoque e posta suas fotos geralmente tiradas da mesa de jantar da sala.
      As redes sociais geram muito murmuro, mas geralmente isto não traduz o comportamento do mercado consumidor.
      De fato, este é um nicho muito recente e ainda carente de indicadores confiáveis e tangíveis.
      A especulação ainda é o cerne das discussões sobre este mercado

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