SCYTHE: SOUND BOARD

SCYTHE: SOUND BOARD

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    O mundo no qual Scythe é ambientado, uma era pós Grande Guerra no leste europeu com nações em torno do centro tecnólogico conhecido como a Fábrica, pode levar a uma escolha musical não muito adequada. Se você viu os grandes mechs nas imagens ao fundo das situações campestres da arte de Jakub Rozalski e saiu correndo em busca daquele som pauleira, perceberá, ao longo da partida, que o ritmo de jogo ficará lá atrás se comparado a uma trilha que invoque combate.

    Desde a primeira imagem que vi deste jogo há dois anos atrás, um conjunto de obras musicais invadiu meu pensamento instantaneamente, aliás, quando isso acontece tenho a tendência de achar que estou no caminho certo. Estou falando dos quartetos de cordas do compositor húngaro do início do século XX, Bela Bartók.

    Por que Bartók? Porque sempre tento localizar o local e o tempo do universo dos jogos com algum autor que se enquadre em ambas as características, como já falei em diversas matérias desta seção. Este compositor produziu na época de Scythe e nasceu no leste europeu, apesar de não termos, no jogo, uma nação fictícia inspirada em sua terra natal, algo estranhamente rebatizado como Hungária, por exemplo. Bartók inspirou-se em formas musicais folclóricas, dando uma pitada mais rural em sua excelente produção erudita. Além disso, adoro colocar música clássica quando posso. Se consegui com que centenas de partidas de Eldritch Horror pelo Brasil fossem climatizadas com o maluco Ligeti, Bartók será moleza!

    Por que quartetos de cordas? A música sinfônica e de concerto de Bartók está entre as melhores páginas da música erudita do século passado, mas é agora que entra a percepção do clima do jogo. Scythe não é sobre combate. Eles ocorrem, certamente, mas é a ameaça do combate que permeia cada rodada. É se armar para garantir a segurança de seus territórios. Em boa parte do tempo, você estará, na verdade, gerenciamento suas ações e recursos, maximizando tudo, em busca do turno mais eficiente possível. Para tal, não vamos usar o clima percussivo das orquestrações de Bartók. A melancolia da sonoridade da formação camerística dos quartetos, pontuada lá e cá com a utilização frequente de acordes e uso de novas técnicas de execução dos instrumentos dará o clima de tensão na medida certa, sem exageros. O balanço final sonora é uma certa tristeza, que é o que percebo ao olhar as imagens do jogo.

    cover170x170Álbum: Bartók: The String Quartets (Emerson String Quartet)
    [link para o álbum]

    Minha referência de leitura destas peças é o quarteto Emerson. Comprei este CD duplo em 1996 (!) e até hoje é a minha versão favorita, em uma execução repleta de drama e fidelidade à escrita bartokiana.

    Hora de ouvir alguns trechos, não?

    Comecemos do começo, o primeiro movimento do Quarteto número 1 em lá menor. Estas são as primeiras notas que me vem à memória ao olhar a caixa de Scythe. Virou minha música tema.

    OUÇA UM TRECHO DO PRIMEIRO MOVIMENTO DO QUARTETO DE CORDAS Nº 1 DE BARTÓK:

    O clima bucólico, levemente tenso, reflete exatamente o que buscamos. Mais uma?

    O compositor conterrâneo de Bartók, Zoltán Kodály, pensava no segundo quarteto de Bartók como episódios da vida. Separei um  trecho do segundo movimento, Allegro molto capriccioso, para exemplificar que mesmo nos momentos mais alegres, não temos nada muito sofisticado. Aqui notamos até uma certa festividade rústica nos desenhos rítmicos.

    OUÇA UM TRECHO DO SEGUNDO MOVIMENTO DO QUARTETO DE CORDAS Nº 2 DE BARTÓK:

    Para fechar estas pequenas amostras musicais, vamos para o último movimento do sexto quarteto, as últimas páginas escritas por Bartók na Hungria e sob impacto do  falecimento de sua mãe. Todas as partes começavam com a marcação Mesto, triste.  Reflete bem a desolação e impotência de certas situações de impasse na partida!

    OUÇA UM TRECHO DO QUARTO MOVIMENTO DO QUARTETO DE CORDAS Nº 6 DE BARTÓK:

    Como sempre, já deixei a playlist prontinha no Spotify, ouçam no modo aleatório que servirá muito bem!

    Abraços analógicos!

    PLAYLIST SELECIONADA:

    Lucas Andrade (Lukita ou Meistre Lucas) "O Homem que se Espalha": A mente geradora da fagulha primordial responsável pela materialização do grupo. É ou foi professor de Matemática de todas as pessoas de gerações mais novas que conhece. É presidente e provavelmente o membro mais empenhado em idealizar novos projetos, iniciativas e firmar parcerias. Tente comer durante as partidas ou amarrotar a toalha oficial das mesas e verá despertar nele um tique nervoso capaz de tirá-lo de seu estado racional. O fato de ser adepto e precursor no grupo do modo de jogo intitulado por ele mesmo "Red Lukita vs. Blue Lukita" revela um aspecto esquizofrênico de sua personalidade. Não joga à vontade sem uma trilha sonora que remeta ao jogo que estiver à mesa. Outros interesses: ópera e música clássica em geral, quadrinhos da DC Comics, esportes americanos, séries de TV, clássicos do cinema.

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