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Mac Gerdts

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    meeple gerdts

    Mais uma entrevista exclusiva e inédita para o On Board. O designer de Antike, Concordia, Imperial, Imperial 2030, Navegador e outros fala sobre sua obra, novidades e visão de mercado.

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    Mac Gerdts Interview

    ON BOARD: Primeiramente, muito obrigado por esta entrevista. Estamos encantados e honrados por você ter aceitado nosso convite e por ceder um pouco de seu tempo e conhecimento.

    No Brasil, há mais e mais entusiastas pelos jogos de mesa modernos. Estamos ainda na infância, mas há muita boa vontade e muitas pessoas trabalhando em promover o amor pelos jogos de tabuleiro, publicando, escrevendo resenhas e compartilhando gameplays. Existe uma produção nacional com força emergente no país, a maioria de excelentes jogos europeus e americanos que pouco a pouco tomamos conhecimento. Nosso grupo começou a conhecer seus jogos através de seu último lançamento, Concordia. (Confira nosso review de Concordia aqui). No Brasil não é tão simples adquirir jogos estrangeiros devido às altas taxas de importação, mas dado o sucesso de Concordia em nossas mesas, estamos adquirindo Imperial 2030, Navegador e Antike Duellum. Então, estamos voltando no tempo, estimulados pelo design elegante de seus jogos, pelo alto valor estratégico e pela pouca relevância da sorte.

    Vamos falar um pouco sobre seus jogos. Vimos que a maioria deles usa o sistema Rondel. Como surgiu a ideia e porque você decidiu continuar com ela em vários jogos?

    MAC GERDTS: Comecei projetando meus próprios jogos muitos anos atrás e o rondel foi implementado inicialmente no começo dos anos 80, na época com dezesseis espaços. Penso ser uma boa maneira de organizar a seleção de ação e pode ser usado de várias maneiras em muitos jogos diferentes.

    O sistema Rondel no tabuleiro de Navegador
    O sistema Rondel no tabuleiro de Navegador

    ON BOARD: Li em outra entrevista quando você falou sobre o jogo “Oppida: Cities of the Roman Empire”. Este foi o nome provisório de Concordia, correto? Por que a mudança?

    MAC GERDTS: Bem, OPPIDA é a palavra latina para cidades, no singular OPPIDUM. Poucas pessoas sabem disso, mesmo as que aprenderam Latim na escola. Isso era um problema, então o nome foi trocado para CONCORDIA, que não apenas é amplamente conhecido como também soa melhor.

    ON BOARD: Em Concordia você decidiu usar cartas em vez do sistema Rondel. O mais maravilhoso do sistema de cartas é que podemos expandir nossa gama de opções, personalizando nossos baralhos. Como surgiu a decisão de usar cartas ao invés do sistema Rondel. Para você, isso foi uma melhoria?

    Concordia rolando nas mesas do On Board (Foto On Board)
    Concordia rolando nas mesas do On Board (Foto On Board)

    MAC GERDTS: Certamente é diferente. Em estágios iniciais, as cartas, representando pessoas com ocupações diferentes, ficavam dispostas em sua frente e quando você usava uma delas, você virava a carta. Mas finalmente foi mais fácil e melhor segurar suas cartas na mão. É um modo fluido e bacana de organizar a seleção de ações.

    ON BOARD: Quando jogamos Concordia, amamos o sistema de cartas e o arranjo aleatório das produções, mas sentimos falta de um sistema de troca entre jogadores. Você pode comentar sobre isso? Por que escolheu não usar um sistema de barganha entre jogadores?

    MAC GERDTS: Fizemos muitos testes com diferentes grupos de jogo. Troca entre jogadores pode ser um verdadeiro problema se os jogadores começarem a discutir o tempo todo. Isto iria interromper muito o ritmo de jogo, aumentar o tempo de espera e levaria a um jogo longo. Não gosto disso, o que gosto é de jogo com uma certa velocidade, no qual você está permanentemente envolvido.

    ON BOARD: Acredito que Imperial é ainda seu maior sucesso e a maior referência quando pensamos em Mac Gerdts. Para você, quais as razões para o sucesso deste jogo?

    MAC GERDTS: Imperial mostra como o dinheiro pode governar o mundo, em uma maneira cínica, no entanto, é apenas um jogo… A ideia central de investidores internacionais usando governos como marionetes para seus objetivos não é o que estamos falando hoje? Além disso, Imperial separa os jogadores das forças atuantes no tabuleiro, assim você não pode ser esmagado completamente. Você sempre pode mudar e cavalgar outros cavalos. A mudança de poderes e alianças é um desafio fascinante, você precisa gerenciar bem isso. E você pode influenciar os outros jogadores com os apropriados incentivos sutis nos momentos certos. Imperial não é para todos, mas concordo que é um grande projeto!

    ON BOARD: A maioria dos seus jogos é baseada em períodos históricos, por um lado isso requer muita pesquisa, mas por outro fornece um caminho certo para os cenários adotados. Imperial 2030, entretanto, é uma jornada para o futuro. Como foi o processo de escolha das nações, incluindo o Brasil, e como foi ajustar os termos e mecanismos para o futuro próximo e para um cenário econômico mais complexo?

    MAC GERDTS: A ideia era ter Imperial em um mapa mundial. Para não ter quase todos os poderes relevantes dentro da Europa, escolhi um cenário futuro. A escolha das nações foi quase natural: Estados Unidos, Europa e os então chamados países BRIC (Brasil, Rússia, India e China). Estou certo de que nas próximas décadas veremos um mundo multipolar e o Brasil terá um papel muito importante nesse futuro. O Brasil é um país grande, dinâmico e fascinante!

    2030
    Detalhe do tabuleiro de Imperial 2030. Podemos ver o Brasil e, mais uma vez, o sistema Rondel

    ON BOARD: Sabemos que seus jogos venceram inúmeros prêmios, incluindo Imperial que venceu o SpielPortugal 2006. No momento, Concordia foi indicado ao Kennerspiel des Jahres 2014, além de competir o SpielPortugal (aliás, parabéns). Como você recebe este tipo de notícia. O que representam para você?

    MAC GERDTS: Projetar jogos de tabuleiro é um grande hobby porque você recebe muitas respostas positivas, mesmo que você não vença as premiações. Você pode conhecer todo tipo de pessoas interessantes de todo o mundo que estão desejosas em discutir e apreciar suas ideias. Claro que fico muito feliz com as premiações, mas são apenas parte do retorno positivo que recebo.

    ON BOARD: Como você vê o cenário dos jogos de mesa hoje? Há ainda espaço para crescimento? Você é otimista em relação ao futuro dos jogos analógicos neste panorama cada vez mais tecnológico e digital?

    MAC GERDTS: Jogos de tabuleiro sempre existirão, porque encontrar pessoas é muito diferente de jogar online. Há um grau de comunicação que simplesmente não pode ser substituído pelo computador. Enquanto os “velhos” mercados como a Alemanha parecem estabilizados, ainda existe potencial para crescimento em países como o Brasil, onde o hobby de jogos de tabuleiro não é tão comum. Mas você está certo, o mundo de jogos digitais parece crescer mais rápido. Comercialmente, estes dois mundos não podem ser comparados. Em vez de um único designer, um artista e um editor, você precisa de um time muito grande e muito dinheiro para criar um novo jogo digital!

    Mac Gerdts explicando Concordia na cabine da BGG em 2013
    Mac Gerdts explicando Concordia na cabine da BGG em 2013

    ON BOARD: Gostaríamos de saber mais sobre o profissional Mac Gerdts. Sabemos de seu gosto em história e economia e a influência disto em seus jogos. Como é seu processo criativo? Outras pessoas se envolvem durante ele? Qual o peso do tema e da mecânica no desenvolvimento de seus projetos?

    MAC GERDTS: Não há sistema algum! Mas existe sempre um pequeno caderno de anotações em meu bolso para escrever novas ideias quando elas surgem: talvez no trem, no bosque ou em casa. Primeiro eu tenho ideias sobre o tema, mais tarde o foco fica em quais mecânicas poderiam simulá-la. Mas é sempre muito importante discutir suas ideias com outros e testá-las no grupo de jogo. Não é tão difícil fazer um jogo que funcione mecanicamente, mas é muito difícil projetar um jogo que jogadores realmente apreciem e, portanto, queiram jogar sempre. Sem a ajuda e o retorno crítico de meus amigos nenhum de meus jogos jamais teria sido publicado!

    ON BOARD: Como é sua rotina de trabalho? Você trabalha integralmente com design de jogos?

    MAC GERDTS: De segunda à sexta trabalho para a Prefeitura de Hamburgo e sua secretaria de finanças. Esta é a única rotina que tenho…

    ON BOARD: Como é seu relacionamento com editores? São eles que encomendam os jogos ou você que surge com as ideias e as propõe a eles?

    MAC GERDTS: Meu editor, Peter Dörsam, é ao mesmo tempo meu amigo e meu parceiro de jogo desde os anos 80. Eu só publico jogos com ele e ele apenas publica jogos que proponho. Até agora, isto tem funcionado muito bem.

    ON BOARD: Quando você decidiu que queria desenvolver jogos? O que motivou e permitiu seguir este caminho?

    MAC GERDTS: Meus primeiros projetos foram feitos na década de 70 quando era criança, jogos ridículos com um bocado de lançamento de dados; alguns tabuleiros ainda estão guardados em minha adega. Como eu poderia parar algo que venho fazendo por 40 anos?

    ON BOARD: Você é um amante da história e li que você gosta de viajar. Já teve a oportunidade de visitar o Brasil? Você sabe algo sobre nossa produção nacional de jogos?

    MAC GERDTS: Infelizmente, o Brasil nunca esteve em minha agenda de viagens. Mas de minhas visitas regulares à Portugal (LeiriaCon) sei que existem vários jogos publicados em seu idioma!

    ON BOARD: Para os brasileiros que querem conhecer Mac Gerdts, que jogo você indicaria como o mais leve, uma entrada para seus jogos? E qual seria o mais pesado?

    MAC GERDTS: Como entrada recomendaria Concordia ou, especialmente para os brasileiros, melhor ainda, Navegador. Existe um tabuleiro em seu idioma e você pode produzir açúcar na Bahia e Rio de janeiro. O mais pesado seria Imperial, em que as regras não são tão difíceis, mas você precisará de algum tempo para realmente entender as dinâmicas do jogo.

    Tabuleiro de Navegador. Esse está na lista dos mais bonitos do Redomanet
    Tabuleiro de Navegador. Esse está na lista dos mais bonitos da Ludopedia

    ON BOARD: Você arruma tempo para jogar? Com que frequência você joga? Você tem um jogo ou designer favorito hoje?

    MAC GERDTS: Geralmente testo meus próprios projetos, então não há muito tempo para outros jogos. Mas meu filho de sete anos gosta de jogar comigo, recentemente jogamos Camel Up. O que me deixa orgulhoso é que ele também gosta de Navegador e Concordia!

    ON BOARD: Você poderia dar algumas dicas para os entusiastas e aspirantes a designers que estão entrando no mercado de jogos?

    MAC GERDTS: Nunca desista! Você precisará de bastante tempo para cometer os erros que outros já cometeram e aprender com eles. E sempre esteja aberto às criticas dos outros! Sem jogadores que deem um feedback honesto você estará perdido.

    ON BOARD: E sobre projetos? O que podemos esperar de Mac Gerdts para o futuro?

    MAC GERDTS: Haverá uma nova versão de Antike em que algumas regras e tecnologias mudaram e haverá uma expansão de Concordia. É muito cedo para falar sobre outros projetos agora.

    Antike
    Antike

    ON BOARD: Alguma mensagem final aos fãs brasileiros?

    MAC GERDTS: Gostei de assistir à Copa do Mundo no Brasil, obrigado por hospedar este evento emocionante! (Nota do editor: lembrando que Mac Gerdts é alemão!)

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